Um novo lar após 55 anos

Por: Esdras Felipe Pereira (Programa de Estágio)

Depois de internação no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, José Santiago, 89 anos, passa a morar em residência terapêutica de Sorocaba, sua cidade natal

Um dia para se soltar das amarras de um passado limitado ao espaço de uma ala psiquiátrica, dividida com cerca de 40 pessoas. Um dia em que a distância de aproximadamente 115 quilômetros entre Franco da Rocha e Sorocaba parecia triplicada no coração de familiares ansiosos para ter seu parente mais próximo. Para muitos, José Santiago, 89 anos, era conhecido apenas por fotografias já amareladas pela ação do tempo.

Terça-feira. Tarde de 25 de outubro de 2016. A data, certamente, não será esquecida tão cedo na memória da família Lopes Machado. Ocasião em que Santiago voltara a Sorocaba, sua cidade natal, após 55 anos internado em um dos maiores complexos psiquiátricos do País, o Hospital do Juqueri, em Franco da Rocha, sob o diagnóstico de esquizofrenia.

Debaixo de garoa fina, assistidos da Residência Terapêutica (RT) Barão, profissionais de saúde que os acompanham 24 horas por dia e, claro, a família de José Santiago, aguardavam ansiosamente por sua chegada. Enfim, o momento tão aguardado: por volta das 15h, ele descera do carro, acompanhado de uma equipe do Juqueri, ainda com as vestimentas do local em que permaneceu mais de cinco décadas de vida.

A recepção não poderia ter sido melhor. Santiago subiu com certa velocidade a rampa de acesso ao sobrado que será seu novo lar daqui para frente. Parecia ansioso para conhecê-lo minuciosamente. Logo lhe apresentaram o quarto onde poderá descansar. Em seguida, mesa farta, com direito a parabéns ao homem que, em 21 de janeiro, completará 90 anos de idade.

Para a supervisora de Saúde Mental da Secretaria da Saúde de Sorocaba (SES), Talita Moraes, na RT, Santiago terá a oportunidade de aproveitar “mais momentos de liberdade”, com uma vida muito menos regrada do que a levada durante sua internação. A partir de agora, será acompanhado por uma psicóloga, um auxiliar de enfermagem e cinco cuidadores que se revezam na residência – que conta com quatro quartos, três banheiros, uma sala, uma cozinha e área externa.

Desinstitucionalização

Santiago é mais um dos pacientes que integram o processo de desinstitucionalização, previsto pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2012 entre a União, Estado e os municípios de Sorocaba, Piedade e Salto de Pirapora, cuja determinação é que se cumpra até o fim de 2016.

No Polo de Desinstitucionalização Vera Cruz, 357 assistidos aguardam para sair, segundo informações da equipe da Saúde Mental . Desde o início do ano até esta terça-feira, 95 altas foram registradas. Além disso, as 26 RTs do município já acolheram 142 pacientes.

Lembranças

A história de Santiago é digna de um roteiro de filme. Começou a trabalhar na lavoura aos 12 anos. Aos 20 e poucos, era ajudante de pedreiro, profissão em que se manteve até meados de 1960. Consta em sua documentação que tem noção de leitura e de escrita. Também há registro de que foi casado, informação negada pela família. Foi internado em 1961 no Juqueri, com alteração na consciência e desorientação.

Cinco familiares estiveram na RT para acompanhar a chegada de Santiago. Os sobrinhos Antonio Lopes Machado, 67, e Adenil Lopes Machado, 59, o sobrinho-neto Anderson Lopes Machado, 38, a esposa de Adenil, Ana Rita, e Murilo, 11, filho do casal. Por ser o mais velho, Antonio é o que mais tem lembranças do tio na ponta da língua. “Lembro de jogar bola na rua com ele”, cita. “Era um homem trabalhador”, acrescenta.

Antonio lembra que, 15 anos após a internação do tio, tentou visitá-lo com o irmão Adenil. À época, foi informado que o homem não estava mais no Juqueri. “Para a gente, ele tinha morrido, ou estava vivendo nas ruas”, recorda. Mas, para a surpresa da família, em meados de 1996, uma ligação deu conta de que o paradeiro do tio era realmente o hospital.

Depois da notícia, Antonio e Adenil foram novamente a Franco da Rocha. Num primeiro momento, não foram reconhecidos pelo tio. “Mas aí o chamei pelo apelido ‘Tio Nene’ e ele me olhou bem atentamente. Depois, me deu um abraço”, relembra.

Desde então, passaram a vê-lo, em média, a cada dois meses. Antonio admite que alguns familiares não tinham o mesmo hábito. “Mas eu sempre insistia para nossa família que precisávamos visitar. Afinal de contas ali tem uma raíz do nosso sangue”, afirma. E acrescenta: “Agora não tem desculpa da distância. A família, com certeza, vai estar de braços abertos para o tio”.

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