Trabalho de Caps IJ fortalece vínculos

Por: Ana Carolina Chinelatto (Programa de Estágio) - Supervisão: Tânia Franco – ttferreira@sorocaba.sp.gov.br

Foto: Assis Cavalcante

Bolos, cachorro quente, algodão-doce e uma decoração especial. Os familiares e os atendidos do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Infanto Juvenil (IJ) Aquarela, serviço oferecido pela Secretaria da Saúde (SES), em parceria com a Associação Pró-Reintegração Social da Criança, tiveram uma manhã diferente nesta quarta-feira (24). A festa, que foi organizada pelos funcionários e voluntários do Caps, em conjunto com as próprias crianças, aconteceu em comemoração aos 10 anos da unidade que atende à Zona Norte de Sorocaba desde 2006, quando foi habilitada à prestação do serviço.

Diferente do que muita gente pensa, o tratamento de crianças e jovens com transtornos psíquicos vai além – e, em alguns casos, nem passa, pela medicalização. Nos Caps, os pacientes são assistidos por uma Equipe Técnica Multidisciplinar composta por Assistentes Sociais, Enfermeiros, Fonoaudiólogos, Professores de Educação Física e de Música, Psicólogos, Psiquiatras e Terapeutas Ocupacionais, além de profissionais de nível médio, que dão apoio técnico. O objetivo, segundo a psicóloga e coordenadora da unidade, Aline Coelho Salvador, é sempre o fortalecimento de vínculos nos planos físico, emocional, social e cultural.

“Não dá para atender uma criança sem levar em consideração o contexto que ela vive, principalmente familiar. É um trabalho complexo, nós trabalhamos esse fortalecimento de vínculo familiar, limites e organização por meio das oficinas”, explica. Mas Aline lembra que “cada criança é avaliada individualmente e a equipe elabora um Projeto Terapêutico Singular (PTS) para tratamento”.

Ainda segundo ela, o tempo de tratamento depende do transtorno, assim como a frequência dos atendimentos. “Quando nossa equipe faz avaliação e constata uma melhora significativa, as crianças recebem alta. Mas o vínculo que é criado, também, com os nossos profissionais é tão grande que muitas delas acabam voltando para nos visitar”, comenta. É o caso de Denner Sene de Souza, que passou por atendimento na unidade desde que ela foi inaugurada. Ele é uma figura sempre presente nas festas e comemorações da equipe.

Superação

Quando começou a frequentar o Caps IJ “Aquarela”, então com 8 anos, Denner era um garoto agressivo, violento, tinha dificuldade na fala e não conseguia se relacionar com outras crianças. “Eu brigada e batia em todo mundo, não sabia conversar”, lembra. O jovem passou por atendimento com psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e gradativamente apresentou melhoras.

Hoje, com 21 anos, Denner se considera uma pessoa completamente diferente, calma e que convive bem em grupo. A melhora foi tanta que há 3 anos ele conseguiu um emprego de empacotador em supermercado. “Tudo o que sou hoje eu devo aos profissonas do Caps. Se não fosse por eles eu nem sei onde eu estaria agora. O trabalho realizado pelo Centro é essencial para o desenvolvimento de qualquer criança que tenha algum problema emocional, como os que eu tive. Serei eternamente grato a cada um dos profissionais”, enaltece.

A mesma evolução apresentada pelo rapaz pode ser observada em outras crianças e adolescentes. A costureira Regina de Fátima Fidelis, 54 anos, tem uma filha de 15 que, atualmente, passa por atendimento e uma de 18 que recebeu alta no início do ano. Segundo ela, o avanço no comportamento das filhas se deu em pouco tempo. “Quando entrou no Caps, a mais velha não sabia falar e escrever nada, tanto que a assinatura do RG dela é a impressão digital. Hoje, fala e escreve algumas palavras e logo a gente vai tirar uma identidade nova, porque agora ela já sabe escrever o próprio nome”, comemora a mãe com um sorriso no rosto.

Pano, Ponto e Prosa”

Entre as oficinas Terapêuticas realizadas como forma de tratamento para as crianças, uma tem maior amplitude. Trata-se do projeto “Pano, Ponto e Prosa” (PPP). Criado em julho de 2011, consiste em uma oficina de artesanato da qual pais e responsáveis podem participar enquanto a criança passa por atendimento. Nos três Caps oferecidos pela Secretaria da Saúde existem núcleos do projeto, mantido por doações.

De acordo com Regina Utima, Gestora em Moda e voluntária no projeto, o objetivo é o mesmo dos atendimentos dos jovens: fortalecimento do vínculo familiar, é um importante momento no qual os adultos participam de oficinas de costura, bordado, tricô, crochê, pintura em tecido e fuxico é único. “A família já vem de uma situação de sofrimento, então precisamos amenizar, fazer com que eles esqueçam um pouco dos problemas. O projeto ajuda nisso. O contato entre os responsáveis pelos atendidos é muito positivo”, conta.

A oficina, explica Regina, trabalha principalmente a parte emocional dos responsáveis. “As mães mudam significativamente depois que começam a participar do projeto, pois a cada trabalho finalizado elas se sentem prestigiadas, capacitadas e valorizadas”. Os trabalhos desenvolvidos por elas são colocados à venda nos eventos das instituições e o valor arrecadado é utilizado para manutenção do projeto.

Regina conta, ainda, que depois de iniciarem as oficinas muitas mães fizeram do artesanato uma fonte de renda extra. “O nosso foco principal não é esse, mas como consequência do aprendizado nas oficinas existem muitas mães que começam a trabalhar com isso, vendem o que produzem e o dinheiro auxilia na renda familiar”, finaliza.

Entre as oficinas terapêuticas realizadas como forma de tratamento estão a de fanzine (recorte de revista), capoeira e de reciclagem, na qual lixos reutilizáveis são transformados em objetos pelas próprias crianças e vendidos em eventos.

A celebração do aniversário ainda prestigiou o esforço da garotada. Os trabalhos resultantes das Oficinas Terapêuticas foram todos expostos na quadra esportiva.

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