702 mulheres procuraram o serviço em 2014
“No início ele era um anjo que caiu do céu, mas começou a beber e ficou violento. Ficava apavorada e morria de vergonha de admitir o que passava, principalmente para os meus filhos, mas agora tudo acabou.” Este é o relato de Maria do Socorro (nome fictício), uma sorocabana que após vários anos sofrendo violência psicológica e física de seu marido, decidiu mudar a sua vida. Ela – assim como outras centenas de mulheres – está recebendo apoio no Centro de Referência da Mulher (Cerem).
Criado pela Prefeitura de Sorocaba e administrado pela Coordenadoria da Mulher da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), o Cerem tem como principal objetivo promover a construção da cidadania da mulher, ampliando seus conhecimentos sobre seus direitos e o entendimento sobre as relações de gênero.
A última agressão de Maria do Socorro ocorreu neste ano, no dia 1º de fevereiro, num domingo, quando o marido lhe deu um soco no olho. “Desta vez eu não aguentei e pedi socorro ao meu filho. Fomos até a Delegacia Seccional, fiz um boletim de ocorrência, fui ao IML (Instituto Médico Legal) fazer perícia e me encaminharam à Delegacia da Mulher. Lá me disseram do trabalho realizado aqui no Centro de Referência da Mulher e eu vim procurar ajuda”, conta.
Há duas semanas ela está sendo atendida pela assistente social e pela psicóloga do Cerem. “Elas estão me ajudando bastante, foram muito bacanas comigo. Não conheço ninguém que já passou por isso e achava que tinha que aguentar este ‘tranco’. Elas me disseram que esta é uma fase difícil mesmo: vem raiva, revolta, preocupação com ele, culpa. É uma mistura de sentimentos. Se não tivesse procurado ajuda eu já teria voltado com ele. Preciso ter calma e paciência”, desabafa. O próximo atendimento está agendado para março.
Maria do Socorro também contou que antes de denunciar a agressão do marido não imaginava a qualidade do atendimento que teria. “Achei que as pessoas poderiam debochar de mim, mas não. São profissionais extremamente preparados para atender o meu caso.”
Atualmente ela mora na casa do filho. “O próprio juiz da Vara da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Sorocaba recomendou. Ele me aconselhou a não voltar para a casa, pois meu marido pode estar com raiva e até me agredir de novo.” Maria do Socorro está amparada pela Lei Maria da Penha (lei nº 11.340) e conseguiu medida protetiva de urgência por lesão corporal. Com isso, o marido não pode se aproximar dela e nem entrar em contato por qualquer meio de comunicação, sob pena de prisão preventiva.
Antes da agressão física, o marido de Maria do Socorro tentou atear fogo na casa dela e felizmente o Corpo de Bombeiros chegou rápido. “Ele também fez muitas ameaças psicológicas, que iria levar meus filhos embora ou matá-los. A gente nunca sabe o que se passa na cabeça de uma pessoa assim, morria de medo”, afirmou. “Em casa ele dormia com uma arma embaixo do travesseiro. Já disse que ia enfiar agulha de tricô no meu ouvido”, contou.
Ao todo, já foram três separações em 17 anos de união. “Agora não quero mais. Quero que ele suma da minha vida para que eu possa viver em paz. Não quero mais decepcionar ninguém. Espero que outras mulheres façam o mesmo que eu fiz e peçam ajuda”, finalizou.
Sobre o Cerem
Inaugurado em 2009, o Cerem presta, gratuitamente, atendimento interdisciplinar especializado e contínuo às mulheres acima de 18 anos e residentes em Sorocaba. O Cerem conta com o apoio do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM).
“No Cerem, as mulheres atendidas se sentem apoiadas. Elas recebem orientações jurídicas e atendimentos psicológico e social, que ajudam e orientam essas pessoas que procuram pela nossa unidade”, declara a vice-prefeita e secretária de Desenvolvimento Social, Edith Di Giorgi.
A unidade funciona como uma articuladora de prestação de serviço de todos os órgãos existentes em Sorocaba. “Atualmente, a mulher sorocabana vítima de violência doméstica conta com uma rede ampla de serviços na cidade. Além do Cerem, temos as unidades do Centro de Referência em Assistência Social, as Unidades Básicas de Saúde, o Ônibus da Mulher, a Defensoria Pública, a Casa Abrigo “Valquíria Rocha”, o Conselho da Mulher, a Delegacia da Mulher, entre tantos outros parceiros dessa causa”, explica a vice-prefeita.
Quando uma mulher passa pela porta de entrada do Centro de Referência da Mulher, ela é recebida pela assistente social, que faz o acolhimento. Nesse primeiro momento, a profissional ouve, verifica os encaminhamentos necessários e a direciona para o profissional mais indicado que atua na unidade: a psicóloga ou a advogada.
“A assistente social também verifica se a pessoa está inserida em algum programa social, se ela trabalha ou não e apresenta cursos de capacitação oferecidos, inclusive pela própria administração municipal”, explica a coordenadora do Cerem, Paula Andréa. Na área jurídica, a Secretaria de Desenvolvimento Social oferece orientação e mediação de conflitos na própria unidade.
Já na área psicológica, a profissional orienta e aconselha a “paciente” focando no seu trauma para fortalecer a vítima de agressão para sair desse relacionamento destrutivo e fazê-la refletir o que ela quer para a sua vida. Em média, são realizadas 12 sessões com cada pessoa.
O Cerem funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e está localizado na Avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, 440, no Centro, próximo à Rodoviária. O telefone é (15) 3211.2548.
Atendimentos em 2014
De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Social, em 2014, o Centro de Referência da Mulher atendeu 702 sorocabanas, sendo que 403 mulheres foram atendidas pela primeira vez.
Foram realizados mais de 1.094 atendimentos e encaminhamentos para os demais serviços da rede de atendimento à mulher vítima de violência doméstica. Desse total, 547 psicológico (individual e grupo), 480 na área social e 67 foram na área jurídica.
Isso sem contar os atendimentos por telefone e presencial, com orientação, acolhimento, monitoramento, agendamento e esclarecimentos em relação aos serviços prestados no Cerem, que somam 960 atendimentos, totalizando 2.054 atendimentos na unidade no ano passado.
A Secretaria de Desenvolvimento Social fez um levantamento do perfil das mulheres atendidas no ano passado. Do total, 16% têm idades entre 31 e 35 anos; 15%, entre 15 e 25 anos; 14%, entre 26 e 30 anos; 14%, entre 36 e 40 anos; 12%, entre 41 e 45 anos; 11%, entre 46 e 50 anos; 9%, entre 51 e 55 anos; 3%, entre 56 e 60 anos; 3%, entre 61 e 65 anos; 1%, entre 66 e 70 anos; e 1%, acima de 71 anos.
Com relação ao tipo de agressão, 32% sofreram violência psicológica; 26%, física; 17%, moral; 17% patrimonial, e 8% sexual. Ainda neste levantamento foi verificado que 65% são casadas ou têm uma união estável. A maioria dos casos de violência envolve o marido (25%), ex-marido (31%), companheiro (10%) ou ex-companheiro (13%).
Outra questão estudada foi a região de moradia: 57% dos casos atendidos no Cerem são de mulheres moradoras da Zona Norte de Sorocaba, seguidos pela Zona Oeste (21%), Zona Leste (20%), Zona Sul (1%) e Centro (1%).
Na questão da escolaridade, 29% das mulheres tinham o Ensino Médio completo; 29%, Ensino Fundamental incompleto; 14%, Ensino Superior completo; 8%, Ensino Médio incompleto; 8% Ensino Superior incompleto, 1% Ensino Técnico e 2% declararam não serem alfabetizadas.