Rede Municipal atende a estrangeiros que escolheram viver em Sorocaba

Por: Tânia Franco - ttferreira@sorocaba.sp.gov.br

Trazidos por seus pais, muitos deles antes de as crianças irem à escola, alunos estrangeiros se adaptam com o apoio de professores e dos amigos, e ainda impulsionados pela alegria de ser bem recebido na cidade

Sorocaba é uma cidade que tem mais de 52 mil estudantes em sua Rede Municipal de Educação, do Ensino Básico ao Médio. São 143 unidades escolares, além de 13 creches conveniadas que atendem aos pequenos, de zero a 4 anos.

E neste universo habitado por crianças e jovens vindos de todos os cantos do Brasil, além dos próprios sorocabanos, há também aqueles que trazem em sua história a cultura e costumes totalmente diferentes daqueles com os quais estamos acostumados a conviver.

São japoneses, uruguaios, espanhóis, peruanos, portugueses e estadunidenses, em sua maioria filhos de brasileiros nascidos no estrangeiro e que carregam aspectos peculiares desses países.

Ao todo, a Rede Municipal conta com 101 crianças matriculadas como estrangeiras. Nesse volume se encontram também os nativos, como Djenika, Nike e Rebeca, vindos do Haiti, e Jhonatan, da vizinha Colômbia que começam a se adaptar às palavras, ao idioma e ao jeito brasileiro de ser por meio dos amigos da escola.

Minaydji Djenika Antoine, aluna do 2° ano da Escola Municipal “Prof. Luiz Almeida Marins”, tem facilidade de lembrar da escola haitiana. Em seus oito anos, fala de como os banheiros lá são muito diferentes dos que encontrou aqui, da divisão de carteira com outros tantos colegas, das brincadeiras na educação física e do silêncio na sala de aula. Detalhe, é que no Haiti a língua oficial é o francês.

Num português em construção, fala que o primeiro contato com o Brasil se deu por meio de livros que o pai comprou. Segundo Dieujuste Antoine, essa é uma forma que a maioria dos haitianos encontrou para conhecer a história, a língua e os costumes brasileiros. Ele, a mulher Miliani e um primo, assim como a totalidade da comunidade existente no município, vieram ao País em busca de uma vida melhor, da construção de sonhos de progresso e tranquilidade. “Mas hoje as coisas não estão muito bem aqui e tudo é muito caro e está difícil”, lamentou principalmente porque seus filhos começam a se adaptar ao País.

E distante da turbulência econômica nacional, os vivos olhos de Djenika contam que quer viver aqui e que seu sonho é conhecer um cinema, ir à praia e torna-se professora. “Já ensino meu irmão pequeno”, realiza.

Descobrindo

Rebeca tem 10 anos e somente há um mês está matriculada na Luiz Marins. O idioma ainda é a dificuldade, mas não a impede de divertir-se e buscar interagir com os colegas. “Cria-se um vínculo diferente entre as crianças e, para eles, é mais fácil estabelecer comunicação”, conta a diretora da unidade, Vanessa Baccelli Michelacci de Almeida. Com três estudantes estrangeiros na escola, ela vê com alegria e satisfação a forma como as crianças os têm acolhido bem. Segundo Vanessa, as observações no convívio diário deixam claro que ali não há discriminação, racismo ou preconceito. “Aqui eles são crianças. É claro que há os conflitos decorrentes da infância, mas nada além disso”, fala. Vanessa ressalta, também, que essa não é uma postura que diz respeito apenas a quem vem de fora, serve e se estende a todos os estudantes, incluindo aqueles com necessidades especiais: “são todos iguais”, reafirma.

Rebeca, pela timidez e nesta fase de adaptação ao meio, se afeiçoou, justamente a Elienai, deficiente visual que participa normalmente das aulas, junto aos demais colegas. Ela tem o apoio de uma auxiliar, mas por uma condição absolutamente de assegurar-lhe melhor qualidade no estudo. E, por causa disso, da atenção da professora auxiliar é que Rebeca tem conseguido melhorar o português e compreender as lições dadas em sala.

Os grandes e lindos olhos de Nikensley Pierre, o Nike, se alternam entre receio por falar e alegria pelas possibilidades de descobertas. Há pouco tempo no Brasil ele já consegue se comunicar muito bem e fala do Haiti como uma realidade muito diferente daquele que encontrou aqui em Sorocaba. Segurando as mãos numa tentativa de proteger-se, fala das árvores que margeiam os caminhos por onde ele tanto correu e brincou em seu país e de como as casas, com suas portas e janelas são tão diferentes. “Aqui é mais desenhado”, tenta resumir.

Da escola gosta mesmo do horário do intervalo e lembra que no Haiti não havia as mesas de pebolim, os jogos e a maior parte das vezes as brincadeiras eram de ficar a correr pelo lugar. Mas, não despreza as aulas e diz que gosta do jeito como a professora ensina: “eu consigo entender e estou aprendendo sobre dinheiro”, simplifica. Da merenda escolar não há o que não goste. Tem os lanches, as sopas com carne, arroz, pão com requeijão e melancia.

Em meio à sala de multimídia, Nike se alegra ao dizer que quer ir ao cinema e ver os heróis “naquelas paredes grandes”. Outro sonho é conhecer o Brasil inteiro. Talvez aí ele tenha vontade de continuar a viver aqui. Por enquanto, por enquanto ele vai ficar.

¿Habla español?”

Há quatro meses morando no Brasil, o colombiano Jhonatan Stiven Gomez Marin, 6 anos, é o retrato da criança ativa. Que o diga o fotógrafo. Não compreendendo muito o contexto de todo o ‘monólogo’ que se travou durante a entrevista, aprendeu na marra o que é “tomar una foto”.

Aluno da Escola Municipal “João Francisco Rosa”, na Vila Angélica, ele começa agora a tomar contato com as letras e a se alfabetizar. Mas no que diz respeito à comunicação social, porém, o guri já é campeão. Com seu espanhol ligeiro está aprendendo a falar más despacio para que os colegas possam entender. E aí acaba ensinando algumas palavras no idioma materno e fazendo com que a turma tenha vontade de aprender o espanhol. “Tia fala pro meu pai onde eu posso aprender a falar como o Jhonatan”, pergunta um vizinho de carteira.

Em casa, a mãe Angela Patrícia Marin diz que está muito feliz em morar no Brasil. Chegou aqui com o marido James Gomez por conta de uma irmã que vive há pouco mais de um ano em Sorocaba. “Para nós foi uma forma de vir par perto da família e continuar com uma referência”, diz.

Sem falar português, diz que está aprendendo ao ouvir os vizinhos, as pessoas na rua e a televisão e espera estar mais afinada na língua em poucos meses. Angela reconhece nos sorocabanos o retrato do povo brasileiro. Conta que foram recebidos como iguais, com carinho, respeito e houve quem acudió quando foi preciso. Vê nisso uma similaridade com seu próprio povo, a quem atribui muita alegría y amistad.

Quanto à educação oferecida ao filho, Angela diz conhecer pouco, mas acredita que está de acordo com a necessidade das crianças do Brasil, na faixa etária de Jhonatan. Mas, uma coisa lhe chamou a atenção, positivamente: ela desconhecia que o filho não poderia levar seu próprio lanche para a merenda. De início não entendia o motivo, até que a direção da “João Rosa” explicou que nas escolas de Sorocaba não pode haver diferenciação entre os alunos; assim, todos recebem a mesma alimentação. “É uma boa coisa, pois mostra que são todos iguais, mesmo meu filho que é da Colômbia”, disse.

Apesar de ainda estarem se adaptando à nova realidade, num país diferente, tanto Angela, quanto James se mostram mais tranquilos acerca da educação de seu filho. Para eles, neste momento, é importante criar raízes, trabalhar para que Angela possa trazer seus outros dois filhos pequenos que vivem com a avó, em Colômbia. “Escolhemos o Brasil para ser nossa nova terra, onde poderíamos ter uma vida mais tranquila e feliz e é aqui em Sorocaba que queremos ficar”, garante James.

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