Quando a música movimenta o corpo e a alma
Por: Ana Carolina Chinelatto (Programa de Estágio) - Supervisão: Tânia Franco – ttferreira@sorocaba.sp.gov.br
Foto: Emerson Ferraz
Dança, nos dicionários, está sempre relacionada a movimentos estereotipados ou gestos cadenciados ao som de uma música. Mas, quem pratica essa arte pode garantir que ela representa muito mais que isso. Dança é paixão, alegria, disciplina, prazer e estímulo para transformar, além de a própria vida, a do outro em algo melhor.
E essa transformação acontece todos os dias em espaços públicos como nos Territórios Jovens, nos Centros Esportivos, no Clube e também na Chácara do Idoso, onde crianças, jovens e adultos, literalmente, dançam suas emoções, se encontram em novos sentimentos e realizações. Tudo de graça.
Há, ainda, a contribuição do grande número de academias particulares que congregam alunos de dança, nos mais variados estilos.
É neste cenário de intenso movimento que nesta semana, entre os dias 17 e 20 de março, acontece o 1º Festival de Dança de Sorocaba – DançAção, que reúne mostras competitivas e apresentações de grandes companhias, no Teatro Municipal “Teotônio Vilela” (TMTV).
O evento é realizado pela Associação Sorocabana Pró-Dança (ASPD), entidade civil e sem fins lucrativos, em parceria com a Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria da Cultura (Secult), com apoio do Fundo Social de Solidariedade (FSS) e tem como meta valorizar a arte, patenteando Sorocaba enquanto polo de dança. O DançAção oferecerá cursos para bailarinos e professores da área, além de oficinas gratuitas para a população, feira da dança e exposição fotográfica.
Quebra de paradigmas
De acordo com a professora de Street Dance dos Territórios Jovens, Fabiana Pacheco, os jovens entram no grupo com uma perspectiva nula de crescimento na dança, mas, o que para muitos, no início, é só entretenimento, se transforma em vontade de seguir uma carreira na área. Segundo ela, ensinar o grupo é muito gratificante. “Além de eu ver o crescimento deles, tanto na dança como no aspecto pessoal, eu também me torno uma pessoa melhor a cada dia. Com este trabalho nós tentamos fazer com que eles entendam a dança com responsabilidade e, assim, se permitam sonhar”, conta.
Mas, o que para os jovens é amor e possibilidade de uma profissão, para os pais não é visto da mesma forma. Segundo Fabiana, a arte como um todo ainda é olhada com muito preconceito, principalmente por ser pouco disseminada no Brasil. Para ela, se cada pessoa que acredita na dança incentivasse um pouco, este cenário poderia mudar. E foi pensando em alterar a maneira como os pais viam a dança, que decidiu reunir pais e filhos para explicar os benefícios que a dança traz.
E o resultado foi surpreendente. “Eles (os pais) se emocionaram muito quando conversamos e perceberam que desde que seus filhos entraram no projeto, eles mudaram muito”, lembra. Fabiana conta que um dos depoimentos mais comoventes foi o de uma mãe cujo filho, antes de entrar na dança, ficava trancado no quarto o dia inteiro. O rapaz se mantém no projeto e, atualmente, se mostra uma outra pessoa: gosta de sair e tem muito mais disciplina na escola. “Todos choraram, foi lindo. Eles entenderam que a dança é extremamente importante na vida de todos”, complementa.
Integrante do grupo há um ano, Joyce Carvalho do Nascimento, 16, vislumbra um futuro diferente impulsionado pela dança. Ela entende que qualquer tipo de arte é essencial na vida do ser humano, mas também considera que ainda existe muito preconceito quando o assunto é transformar a arte em um futuro. “Hoje a sociedade impõe que devemos fazer faculdades como Direito e Engenharia para termos um futuro bom, mas eu não penso assim”, frisa.
Com a intenção de trabalhar com algo que tenha pelo menos um pouco de dança, a jovem pensa em cursar Artes Cênicas. “O preconceito é tanto que até o piso salarial é absurdamente diferente, mas é trabalho do mesmo jeito. Eu quero para a minha vida algo que eu sinta prazer em fazer, não o que julgam ser superior. Essa intolerância à arte precisa acabar”, comenta.
Motivação
A dança vai além do movimento, envolve também o respeito, a disciplina e a boa ação, garante Fabiana. Prova viva disso é Nayguel Christian dos Santos Julião, de 21 anos, integrante do grupo. Sem se interessar por estudos, o jovem parou de frequentar a escola no segundo colegial e jamais havia cogitado a possibilidade de cursar ensino superior. Hoje, depois de quase dois anos participando do projeto, seu pensamento é completamente diferente. “Aqui na equipe de dança, nós somos muito incentivados a estudar e a tomar um rumo na vida. Depois que eu comecei a dançar eu voltei para a escola, me formo esse ano e, justamente por amar a dança, penso em fazer faculdade de educação física”, conta, cheio de orgulho.
Para ele, dança é prazer e motivação. Pensar em ter que ficar sem participar das aulas é doloroso. “Esses dias eu estava até chorando porque comecei a trabalhar e não vou mais ter tempo para dançar. Vou ter que arrumar um jeito. Dançar é tudo para mim, não consigo mais ficar sem”, desabafa.
Frutos de um trabalho árduo
A seriedade do trabalho desenvolvido nos TJs, que são equipamentos ligados à Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), da Prefeitura de Sorocaba, é tão grande que muitos alunos já foram convidados a integrar equipes de grandes companhias de dança. Ou, ainda, são integrados ao “Art Fik Dance” que representa a cidade em competições fora e do qual Nayguel e Joyce fazem parte. O grupo, aliás, foi selecionado para participar de um campeonato na Argentina, em setembro deste ano.
Dança não tem idade
Mas a dança não se limita aos que têm menos idade. As ‘crianças’ mais velhas também encontram no movimento corporal uma motivação para levantar da cama todos os dias. Prova disso são as sempre lotadas aulas de jazz, realizadas no Clube do Idoso “Carlos Alberto Moura Pereira da Silva”. A vontade de aprender e a energia de quem tem mais de 60 anos, muitas vezes, são maiores do que as dos jovens.
Na aula de Jazz, enquanto a professora auxilia uma aluna na execução dos passos, as outras ensaiam a coreografia mais uma vez para garantir que, na próxima, tudo saia perfeito. Os braços acompanham as pernas, que seguem no ritmo da música. No rosto de cada uma, a expressão leve e o sorriso sincero demonstram a entrega ao momento e a alegria de quem, mesmo com os cabelos brancos, voltou a ter vinte e poucos anos.
E se a idade não é empecilho para essa arte, a força desses jovens senhores é suficiente para ultrapassar quaisquer outros obstáculos. Alguns deles até surpreendentes. Erenita Telles Berlinga, de 73 anos, é um exemplo. A dificuldade para enxergar, aliada a uma audição quase nula, não impediram que a aposentada aprendesse a dançar depois dos 58 anos. “Eu não vejo o rosto das pessoas, de longe não sei se é homem ou mulher e praticamente não ouço nada. Mas na dança eu esqueço de todos os meus problemas e não tenho dificuldades, pois eu sigo a batida da música e me entrego completamente”, declara.
Para ela, nunca é tarde para começar a dançar. “No começo, falavam que eu era muito dura, mas agora mandam até eu parar de me mexer um pouco”, brinca. E, justamente pela dedicação e pelo amor à arte, Erenita ganhou medalha de ouro na dança de salão dos Jogos Regionais do Idoso (JORI) do ano passado, realizados em Itapetininga.
A paixão é tanta que dançar apenas nas aulas não é o suficiente. Todas as sextas-feiras Erenita vai ao baile com as suas amigas. “Eu preciso da dança. Ela me dá sentido para viver, eu me sinto muito mais feliz quando eu danço. Dançar para mim é vida”, declara.
Essa identificação com a arte acontece com todos os integrantes do grupo. Nilcea Guiddolin Zambon, 68 anos, também considera a dança essencial em sua vida e garante que depois que começou a frequentar o Clube do Idoso, ela mudou. “A música toma conta da mente, eu adoro tudo o que vem da música. Fico extremamente feliz quando danço. Mas, além de fazer bem para a cabeça, também faz para o corpo. Antes de dançar, eu sentia muitas dores nas pernas, hoje eu não sinto mais nada, nem vou ao médico”, declara.
Mas muitos idosos que não conhecem este trabalho de perto consideram impossível reviver a felicidade dos tempos da juventude. Na contramão desta ideia, Nilcea diz não concordar com as pessoas que afirmam que o tempo não volta mais. “É claro que volta. Todos temos um pouco de criança. Dançar é reviver momentos bons, é nos sentirmos feliz de novo, assim como erámos quando criança”, garante.
Fabiana também é professora de dança do Clube do Idoso, inaugurado pela Prefeitura de Sorocaba em 2012. Ela conta que, além de fazer bem à saúde, a dança possibilita que os idosos se relacionem com o mundo jovem. “Elas só querem músicas atuais e, por conta disso, acabam se relacionando melhor com seus netos, por exemplo. A dança tem esse poder”, conta.
Incentivo desde cedo
Assim como os jovens e idosos, os pequenos também têm vez na dança sorocabana. Disponibilizando o espaço do Centro Esportivo do bairro de Brigadeiro Tobias, a Prefeitura de Sorocaba incentiva esta arte também aos mais novos. Como voluntária, Vânia Ribeiro dá aulas de balé de graça para crianças de 3 à 5 anos às quartas e sextas-feiras. Para ela, a dança é essencial para todas as idades. “Trabalha a parte psicológica, a coordenação motora e a autoestima. A dança é completa, envolve o corpo e a mente”, frisa.
Para Vânia, a dança auxilia também nos problemas que as crianças têm em casa. “Se eles não estivessem aqui, ninguém sabe onde estariam. As vezes, eles ficam sozinhos e se está acontecendo alguma coisa em casa nós ficamos sabendo e podemos passar para alguma pessoa que ajude. A dança vai além do movimento corporal”, afirma.
As duas filhas de 3 e 5 anos da fisioterapeuta Ana Paula Berton fazem a aula há um ano. Segundo ela, as meninas mudaram positivamente desde que iniciaram na dança. “Hoje elas são mais calmas, se desenvolveram mais no lado corporal também, têm mais coordenação motora e são mais sociáveis. Foi a dança que proporcionou isso”, garante.
Conforme a professora, a dança também tem o poder de unir as pessoas. Por fazer o trabalho em um bairro carente, a ajuda que os pais dão uns aos outros é ainda mais notória. “A maioria não tem condição financeira, não consegue comprar roupas e sapatos. Por isso, conseguem doações ou vendem entre eles por um preço muito mais em conta aquilo que já não serve nos seus filhos. A gente se ajuda”, esclarece.
E é por meio do esforço dos pais que este ano os grupos de dança do Centro Esportivo realizarão seu terceiro festival. O evento terá como tema “A lenda de Oz no ritmo da dança” e será realizado no dia 21 de agosto no teatro “Pedro Salomão José”, auditório da E.M Getúlio Vargas.
DançAção
O 1ºFestival de Dança de Sorocaba – DançAção recebeu a inscrição de cerca de 150 coreografias para a sua Mostra Competitiva. Além de escolas e academias de Sorocaba, foram recebidas inscrições de grupos de Votorantim, Tatuí, Itapetininga, Salto, Ribeirão Preto, Jundiaí, Franca, Jacareí, Piracicaba, Campinas, Praia Grande e até de Pinheiral, município do Estado do Rio de Janeiro.
Por quatro dias, Sorocaba reunirá renomadas companhias em apresentações gratuitas para o público. Nomes como o Balé da Cidade de Santos (dia 17), Faces Ocultas Companhia de Dança (dia 18), São Paulo Cia de Dança – SPCD (dia 19) e Cia Brasileira de Ballet de Ourinhos (dia 20) estarão mostrando suas performances em solo sorocabano.
De acordo com a secretária da Cultura, Jaqueline Gomes, a organização da dança tem grande importância em Sorocaba e isso é perceptível, a partir da agenda do TMTV que, durante os três últimos meses do ano, fica reservada às atividades das academias de dança da cidade, que trabalham desde a vivência da dança até a formação de profissionais. “O DançAção vem para coroar este trabalho que já é desenvolvido em Sorocaba. Será uma oportunidade de troca de experiências entre profissionais, professores e técnicos, além de inserir a cidade no mapa nacional da dança”, explica.
Para a presidente do Fundo Social de Solidariedade de Sorocaba (FSS), Maria Inês Moron Pannunzio, a dança possibilita a humanização das pessoas. Ela considera essencial colocar o corpo em movimento, pois a arte é saudável e traz alegria. Neste sentido, o DançAção visa, justamente, possibilitar o acesso de todas as pessoas a esta arte. “Durante todos os dias do evento, os participantes respirarão arte e nossa intenção é envolver todas as pessoas, para que também transpirem as emoções da dança, vivenciando tudo aquilo que os ritmos nos oferecem, pois todos devem ter garantidos o acesso à cultura”, ressalta.
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