Projeto da EM “Matheus Maylaski” rompe barreiras e se torna livro

Por: Esdras Felipe Pereira (Programa de Estágio) Supervisão: Tânia Franco – ttferreira@sorocaba.sp.gov.br

“Somos todos iguais na diferença, o mundo é plural”. A frase, estampada na camiseta da professora Érica Monteiro Nunes Bastida, da Escola Municipal “Matheus Maylasky”, não poderia ser mais adequada àquela que, como descreve, viveu “anos de batalha” para cuidar bem de quem ama. Aos 2, sua filha Ana Julia – atualmente com 8 -, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Hoje, a garotinha responde, também, por “Princesa Juju”.

A alcunha recebida pela menina não é à toa, daquelas meramente colocadas por mães corujas. Agora, na literatura, Ana Julia é, de fato, uma princesa. Érica jamais imaginara que uma espécie de “lição de casa” da época em que a filha estudou no Centro de Educação Infantil “Victoria Salus Lara” (CEI-20), em 2014, chegaria tão longe e se tornaria um livro sobre a pequena. Mais do que isso: não passava por sua cabeça que a inclusão social poderia ser aplicada de maneira tão plena.

No CEI-20, foi pedido que os pais contassem uma história sobre seus filhos. E Érica contou, com todo o protagonismo merecido por sua princesa – sem dramatizar, garante. No ano seguinte, Ana Julia se transferiu para a escola da mãe que, quando perguntada sobre as características da garota, gostava de mostrar aquilo que havia escrito. Muitos professores ficaram impressionados e sugeriram que o enredo fizesse parte do projeto “Sala de Leitura”, desenvolvido na unidade de ensino do 1º ao 5º anos do Ensino Fundamental.

“Princesa Juju: uma princesa um pouco diferente”, então, passou a “ganhar” as salas de aula da EM Matheus Maylaski, em papel e também por meio de slides, com uma narração da história. Mas não era o bastante, ao menos para a equipe escolar. A orientadora pedagógica, Adilene Cavalheiro, cujo marido é escritor, insistia para que Érica transformasse a proposta em um livro. “Mas eu dizia que não tinha dinheiro para isso”, diz a mãe-professora.

Érica, porém, foi vencida pela insistência. A equipe da unidade de ensino abraçou tanto o projeto que a responsável pelas ilustrações do livro é filha de outra professora de lá. A menina Beatriz Maciel, 10 anos, sente-se orgulhosa por ter feito os desenhos. “Fiquei muito feliz. E desenhar é uma das atividades que mais gosto de fazer”, diz. No mais, muitos professores, alunos e pais, contribuíram na pré-venda da obra. “Consegui vender antecipadamente 355 livros”, conta a autora.

Com o dinheiro da pré-venda, Érica conseguiu, enfim, imprimir 500 exemplares numa gráfica. E, neste sábado (5), a partir das 15h, promoverá uma tarde de autógrafos na Biblioteca Infantil “Renato Sêneca de Sá Fleury”, localizada na Rua da Penha, 673, no Centro. O evento é aberto ao público. Na ocasião, 80 livros serão colocados à venda, cada um a R$ 10. “Esse número (80) é porque estou equilibrando, já que algumas universidades da cidade se interessaram que eu faça uma palestra e, depois, deixe algumas unidades à venda.”

Sala de Leitura”

O projeto “Sala de Leitura”, com a narrativa sobre a princesa Juju, deixou encantados os alunos participantes, revelam as professoras do 3º ano Luciana Kerche e Gracielle Rocha. Segundo elas, os estudantes que não conheciam a garota na escola, ficaram ansiosos para esse momento. Na proposta, a cada dia, um exemplar das folhas coloridas contendo a história – que ainda não era um livro – era levado pelos pequenos para casa, a fim de que a apresentassem aos pais. Junto, também carregavam um caderno para escreverem comentários.

No caderno, por exemplo, haviam perguntas como “Quando Juju se encontrou muito doente, o que teria de ser feito para que ela se recuperasse?”. Em um dos relatos, Guilherme Ficher, do 3º ano B, escreveu que “muitas pessoas se uniam em pensamentos e no coração para a melhora desta princesa”. O mesmo garoto deixou outra mensagem: “Espero que você continue com esse sorriso lindo e não ligue para o que as pessoas vão falar de você”.

Para a mãe-professora Érica, que não esperava a dimensão tomada, o projeto foi importante para que a inclusão social fosse aprendida desde cedo pelos alunos. “A gente tem costume de pensar o trabalho de inclusão com adultos, por uma questão profissional. Mas plantando essa semente desde o início é muito melhor”, argumenta.

Érica admite que a proposta também influenciou para melhorar a interação da filha com os demais colegas de sala. “Alguns alunos se aproximaram mais dela. Hoje, querem levar a lancheira da Juju, querem comer o que a princesa come”, brinca. “A lancheira dela é super leve, mas ela também se aproveita um pouco (risos), já que querem levar. Às vezes tem até um atrito de quem vai ficar mais perto da Juju”, complementa.

De acordo com a orientadora pedagógica, a escola recebe crianças com diferentes deficiências e, por isso, é feito um trabalho diário, com um plano de ensino e uma sequência didática pensando nesses aspectos. “Muitas famílias vão se identificar com esse projeto que leva o nome da princesa Juju. Acaba saindo um pouco do contexto local e ganha, inclusive, o universo da educação”, acrescenta Adilene.

Princesa Juju em casa

Segundo Érica, a filha começou a apresentar características do TEA com 1 ano e meio de idade. “Não queria colo, era extremamente apática”, lembra. A sequência também não foi fácil. Conta que quando mais de quatro pessoas que não fossem da família estavam no ambiente, a menina não aceitava. “Ela chorava muito”, cita.

Hoje em dia tudo mudou, garante a mãe. “A afetividade dela é com todo mundo. Ela quer pegar no cabelo, abraçar. O contato visual também melhorou muito. Na maioria das vezes, você fala e ela olha nos olhos”.

Sobre ter uma princesa em casa daqui para frente, Érica diz que é motivo de orgulho e empolgação para ela, para o marido Ricardo e para o outro filho, Luiz Augusto, de 4 anos. “O meu marido está mais emocionado que eu, e me incentiva muito. E o meu filho tem um carinho muito especial pela irmã”, conta.

Embora não se comunique verbalmente, a mãe acredita que a filha sabe que é a princesa Juju. “A gente entende toda a comunicação que ela nos apresenta. Ela acha engraçado, porque parece que pensa: ‘que princesa? Vocês estão doidos? Eu apronto muito’ E ela apronta mesmo”, brinca Érica. “Ela entende a história. As coisas que coloquei no livro são como uma linha do tempo de tudo que aconteceu na vida dela”, emenda, cheia de satisfação.

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