Os animais e eu: quando o ter vai além do possuir

Por: Tânia Franco - ttferreira@sorocaba.sp.gov.br
Foto: Assis Cavalcante

Na semana em que se comemorou o Dia Mundial do Animais – 4 de Outubro, servidores mostram onde, como e porque cuidam, guardam e amam os bichinhos. Seja em casa ou no ambiente de trabalho, como ‘donos’ ou como cuidadores temporários.

“Antes de ter amado um animal, parte da nossa alma permanece desacordada.”

A frase do Nobel de Literatura de 1921, Jacques Anatole François Thibault, ou simplesmente Anatole France (1844 – 1924), traduz muitíssimo bem a relação que grande parte das pessoas constrói com bichos de estimação. Ao estabelecer uma emoção positiva com um bichinho, crianças, jovens e adultos contabilizam ganhos em suas vidas.

E mesmo antes do escritor, poeta e crítico francês falar disso, filósofos da antiguidade, um presidente estadunidense, escritores e até pesquisador naturalista responsável pela teoria da evolução das espécies, traduziram o binômio homem-animal, por meio de suas ideias, oferecendo à humanidade uma herança baseada em observação, mas pontuada por compaixão, respeito e amor.

Sentimentos que, sem dúvida, definem a amizade existente entre o assistente de gabinete Rafael Andrade Frattes e Valesca, uma cachorra que há alguns meses mudou-se para o Centro Operacional II (CO), da Secretaria de Serviços Públicos (Serp), no Alto da Boa Vista, após ter ficado sozinha na desocupação de um imóvel da Prefeitura de Sorocaba. “Foram três vezes até o fim da mudança no local e decidi que não a deixaria”, conta Rafael que tornou-se guardião da “loira” e foi adotado como dono.

O amor da cachorrinha por ele é tanto que deixou de comer e beber por quase duas semanas quando seu ‘salvador’, literalmente, sumiu do lugar de trabalho. Vítima de um enfarto no dia 21 de setembro, Rafael ficou em coma induzido por dez dias e só deve retornar ao trabalho na próxima semana. Mas, engana-se quem pensa que Valesca ainda não come. Foi sair do hospital e Rafael passou a visitar o CO diariamente, levando a salsicha que a amiga animal tanto adora. “Não tem como não amar. Sei que ela sofreu, e também foi por amor. Quando estou aqui, ela só anda comigo. É querida de todo mundo, mas é a mim que ela segue”, fala com uma ponta de emoção.

Emoção que alimenta uma relação de carinho e respeito, também, com Xispita, que vive em sua casa e que, durante o período de internação hospitalar, só ia para a casinha quando tinha uma roupa do dono para se deitar. “Minha mulher disse que ela ficava no portão, todo dia, o dia inteiro, esperando minha volta”, contou.

Rafael Frattes não tem memória de quando ou como sua história com os bichos começou. Diz que também gosta de gatos, mas confessa nunca ter tido um. Para ele, mais do que ter um animal de estimação é ter consciência do que isso significa, para o bom e para o ruim, pois, ao mesmo tempo em que acalentam o espírito com um amor desinteressado e puro, exigem cuidados médicos, higiênicos, de segurança e, claro, o retorno do mesmo sentimento. Até porque, neste aspecto Rafael concorda com o escritor Mark Twain que numa de suas colocações disse: “Ao estudar as características e a índole dos animais, encontrei um resultado humilhante para mim”.

“Somos muito pequenos em relação aos animais”, reforçou Frattes.

A espera de um “amicão”

Valesca teve a sorte de encontrar um amigão. O mesmo ainda não aconteceu com os 42 cães e 9 gatos que vivem temporariamente no Canil da Seção de Controle Animal, da Divisão de Zoonoses da Secretaria da Saúde de Sorocaba. Ainda, pois a expectativa diária dos cuidadores que alimentam, limpam, curam e tratam a bicharada é de que alguém disposto a receber muito amor apareça por lá e leve um pet para casa.

Não fosse esse aspecto, a maioria deles ainda carrega uma história de tristeza: abandono, descuido e maus-tratos que os colocaram nas ruas, em risco e oferecendo risco às pessoas. Por isso chegaram ao canil, conta o chefe da seção, Pedro Machado. A quase totalidade dos animais está ali por conta da irresponsabilidade das pessoas. “Muitos foram atropelados, envolveram-se em brigas que quase os levaram à morte”, contou.

Mas lá, isso muda pela ação dos cuidadores. Numa conquista que é diária, trabalhada com paciência, acabam confiando, percebendo que estão a salvo e, assim, aceitam afeição e retribuem lambidas de agradecimento.

O sistema de atendimento prestado pelo Canil do Controle Animal, aliás, é muito técnico. Cada bichinho que dá entrada no local é avaliado, passa por banho, retirada manual de carrapatos, faz exames e é medicado. Todos são fotografados, recebem um nome e ganham um prontuário. Por cinco dias, os bichos ficam sob a guarda da Prefeitura e após isso são castrados e recebem um chip de identificação.

Segundo Pedro, desde 2008, por força de lei, o canil só pode recolher os animais em condições de perigo. A criteriosidade é fundamental para que o serviço seja prestado de acordo com a legislação. Por isso, também são desenvolvidas feiras de adoção para diminuição da população retida.

E neste aspecto, o chefe da Seção Animal diz que a parceria com as ONGs protetoras dos animais tem sido muito positiva. Conforme disse, houve um estreitamento da relação do poder público com essas instituições e todos trabalham juntos visando à conscientização acerca da posse responsável e da necessidade de se cuidar do animal de estimação. Mesmo assim, as câmeras de segurança do local, ainda flagram pessoas deixando filhotes dentro de caixas no portão.

Identificação por imagem

Uma medida prestes a entrar em prática será a identificação por imagem das pessoas que buscam o canil para deixar animais que não se enquadram no protocolo de serviço e acabam tendo que voltar com os bichos para casa. “Muitos, mediante a explicação do nosso serviço e negativa de aceitação, simplesmente largam cães e gatos aí no portão”, disse. Pelo novo sistema, e com a ajuda das câmeras, será possível identificar quem é a pessoa e, assim, atribuir a ela a responsabilidade pelo abandono.

De acordo com ele, a Prefeitura de Sorocaba trabalha com o que é possível para proteger os animais. Mas, é importante ressaltar que a maior responsabilidade de cuidar de um bicho de estimação é de quem opta por tê-lo. E isso vai muito além de oferecer água e ração.

E como bem disse o jurista e filósofo inglês, Jeremy Bentham, “Não importa se os animais são incapazes ou não de pensar. O que importa é que são capazes de sofrer”.

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