Trabalho envolve mão de obra especializada e tem papel fundamental na restauração do acervo e preservação da história
Quem visita o Museu Histórico Sorocabano (MHS) ou o Museu da Estrada de Ferro Sorocabana (MEFS) nem imagina que, além de todo acervo exposto aos visitantes, existem milhares de outras peças e documentos que estão guardados num local especial: a Reserva Técnica. O espaço público escolhido para abrigar todo este “tesouro” histórico que não está em exposição é o Palacete Scarpa – atual sede da Secretaria da Cultura (Secult), no Centro de Sorocaba.
Coordenado pela equipe da Divisão de Patrimônio Cultural da Secretaria da Cultura, a Reserva Técnica envolve mão de obra especializada e tem papel fundamental de restaurar o acervo e preservar parte da história que muita gente nem imagina que exista.
“As exposições que fazemos, todas as pessoas têm acesso e sabem que existem, mas tudo o que fazemos aqui na Reserva Técnica, poucos conhecem. Mesmo quando não estamos tendo eventos, nós estamos aqui trabalhando nesta área. Este é um processo que começamos em julho deste ano e é contínuo, não para”, explica Daniella Moreira, museóloga da Secretaria da Cultura.
A equipe, que conta ainda com a atuação de quatro estagiários, é responsável pela preservação do acervo, com a conservação preventiva, higienização, pesquisa, identificação, registro, classificação e catalogação de todo o histórico dos objetos museológicos que fazem parte do acervo dos museus sorocabanos. De acordo com ela, sem contar o material arqueológico, a Secult levantou a existência de 1.800 peças na Reserva Técnica. “Temos muito material e fazer todo este trabalho de pesquisa e identificação é bastante trabalhoso”, comenta a funcionária.
Recentemente, foi criado um laboratório de conservação preventiva. “Estamos começando a trabalhar com este laboratório, com a aquisição de uma mesa higienizadora. Neste momento, os estagiários estão trabalhando com o nosso acervo de moedas antigas e mapas, plantas e desenhos técnicos da Sorocabana”, conta Daniella.
Outra ideia da equipe é criar uma política para receber materiais doados pela própria população ou instituições. “Também estamos pensando na política de aquisição e de descarte tudo isso para tornarmos os nossos museus cada vez mais técnicos e profissionais”, afirma a museóloga.
O acervo que ninguém vê
Nas seis salas ocupadas pela Reserva Técnica estão inúmeros materiais, desde mobiliário, quadros (como de Ettore Marangoni), objetos de arte popular, material arqueológico histórico e pré-histórico riquíssimo, com urnas funerárias, crânios, ossos, cerâmica, pedra lascada, machado líticos, ponta de flecha, além de peças nem tão antigas, como máquinas registradoras, de datilografia, de costura, relógios, panelas de ferro, roupas dos ferroviários, acervo etnológico, bustos, entre outros materiais.
Uma das peças mais curiosas que está na Reserva Técnica é o crânio de uma índia mumificada, provavelmente vinda dos Andes, que ficava em exposição no Museu Histórico Sorocabano. “Muitas pessoas que visitam o museu perguntam onde está o crânio da índia. E ela está aqui em nossa Reserva Técnica. Não podemos expor este material sem um local adequado para a conservação desta peça”, afirma Daniella Moreira.
O local também abriga urnas funerárias, algumas de mais de 2 mil anos de existência, encontradas em Sorocaba por pesquisador do Projeto Gênesis Sorocabana. Estas são as peças mais antigas do MHS.
Endosso institucional
“O acervo arqueológico sempre tem que estar em uma instituição pública, isso é uma lei federal”, explica Daniella Moreira, se referindo à Lei nº 3.924 de 26/07/61, que dispõe sobre os monumentos arqueológicos e pré-históricos. Conforme a legislação, os monumentos arqueológicos ou pré-históricos de qualquer natureza existente no território nacional e todos os elementos que neles se encontram ficam sob a guarda e proteção do Poder Público.
O Museu Histórico Sorocabano é um dos poucos museus do Estado de São Paulo que pode receber material arqueológico do Brasil através de um endosso institucional.
Desta forma, todo empreendimento a ser construído, se estiver localizado numa área que tenha algum resquício de arqueologia, deve contratar antes do início da obra uma empresa arqueológica para fazer a escavação do local. Esta empresa contratada então procura um museu ou uma instituição de pesquisa, que será responsável por abrigar este material, conservá-lo e torná-lo acessível à população. Tudo isto é feito através de um endosso institucional. “A empresa coleta o material, identifica e o documenta, e nos entrega uma caixa com o material arqueológico. Mas isso pode demorar bastante tempo”, explica Daniella Moreira.
A Reserva Técnica do Palacete Scarpa possui, por exemplo, pedras lascadas e cerâmicas, vindas de uma área de São João do Rio do Peixe e Marizópolis, municípios da Paraíba (PB), além de inúmeros outros materiais vindas de outras cidades, como Santos, Cajamar, São José dos Campos, entre outros.
Em troca de abrigar este acervo arqueológico, a instituição recebe recursos financeiros ou materiais e equipamentos para serem utilizados no próprio local. Com isso, a equipe da Secretaria da Cultura já recebeu estantes, armários, pastas e produtos químicos para a higienização. “Recebemos também um scanner de mão, que queremos utilizá-lo para digitalizar os livros de cemitérios e assim evitar que as pessoas manuseiem o material, evitando a sua deterioração”, explica Claudia Tavares, chefe de Divisão de Patrimônio Cultural.
Exposições em 2016
De acordo com a Secretaria da Cultura, com todo este trabalho que está sendo feito na Reserva Técnica, a ideia é realizar duas exposições em 2016 no Museu Histórico Sorocabano. A primeira será com o acervo de moedas brasileiras – desde o Brasil Império – e exemplares internacionais, e vai ocorrer no primeiro semestre de 2016, provavelmente no início do ano. A outra exposição será com o acervo de arqueologia, no segundo semestre de 2016.