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Acessado em: 30/11/2025 - 11h23

Mais um paciente do Hospital Vera Cruz vai morar com a família

Por: Eduardo Santinon – esantinon@sorocaba.sp.gov.br

Depois de 38 anos internada em hospitais psiquiátricos, dos quais os últimos 10 anos em instituições em Sorocaba, Ana Mendes dos Santos, 61 anos, foi ao encontro de seus familiares nesta terça-feira (2). Acompanhada de um enfermeiro do Hospital Psiquiátrico Vera Cruz, onde era paciente, às 10h55 ela subiu no avião que a levou de São Paulo para a cidade de Barreiras, na Bahia. Depois serão mais cinco horas de carro até chegar ao município de Oliveira dos Brejinhos, onde Ana vai morar com a família, mais especificamente, com os irmãos, no povoado de Queimada Nova.

A iniciativa é mais uma ação da Secretaria da Saúde (SES) de Sorocaba, como parte do processo de desinstitucionalização de pacientes da saúde mental. O Hospital Vera Cruz, que atualmente conta com 459 pacientes, está sob intervenção da Prefeitura de Sorocaba, por determinação judicial. É a única instituição do tipo no município e cujo encerramento de atividades está previsto para dezembro deste ano, conforme Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em dezembro de 2012 entre Ministério Público, Prefeitura, Estado e Governo Federal.

Ana Mendes deixou o “Vera Cruz”, às 7h, onde vivia desde março de 2014. Além dessa unidade, antes teve passagem pelo antigo Hospital Mental Medicina, em Sorocaba, e pelo Hospital do Juquery, uma das mais antigas e maiores colônias psiquiátricas do Brasil localizada em Franco da Rocha, onde viveu por 28 anos. Em São Paulo, na hora do embarque, recebeu a companhia dos primos, que moram em Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo, que ajudaram no processo de repatriação familiar.

Em Oliveira dos Brejinhos, Ana Mendes tem três irmãos que, desde o ano passado, se mobilizavam para levá-la para o convívio familiar. Inclusive, construíram um quarto para acolhê-la. O acompanhamento terapêutico mostrou que Ana, calma e de fala baixa, frequentemente opta pelo isolamento, sendo independente ao se alimentar, vestir e ao se higienizar, precisando apenas do estímulo, sendo bastante colaborativa.

Emoção e identificação

“É sempre emocionante acompanhar a saída de um paciente psiquiátrico. Comemoro cada uma delas, pois o convívio com a família é o melhor modo de se sentir acolhido”, destaca Mirsa Elisabeth Dellosi, coordenadora de Saúde Mental de Sorocaba. Ana Mendes foi a sexta saída de interno do “Vera Cruz” em 2016, seja para conviver com seus familiares ou morar em Residências Terapêuticas (RTs).

A equipe de desinstitucionalização da SES já localizou as famílias de aproximadamente 200 pacientes do Hospital Vera Cruz. “Por meio de pesquisa, tentamos identificar algum vínculo que ficou abandonado no passado, o que pode ajudar na direção da reinserção do paciente na sociedade. Fazemos com cuidado. Mas nem sempre é possível recuperar os vínculos familiares”, explica. Neste caso existem as RTs, para onde são direcionados os pacientes que recebem alta médica e não têm familiares. Em Sorocaba são 26 unidades do tipo.

Mais transferências

A coordenadora de Saúde Mental de Sorocaba lembra que o caso de Ana Mendes é o segundo de paciente que voltou para casa de avião, custeado pela Prefeitura. O primeiro foi no dia 2 de dezembro de 2015, envolvendo Gelso Aparecido Mazzaro, 51 anos. Depois de viver por seis no Hospital Psiquiátrico Vera Cruz, e antes disso em Franco da Rocha (SP), agora vive com a família em Vera Cruz do Oeste, cidadezinha no Paraná, a 113 quilômetros de Foz do Iguaçu.

A SES ainda negocia a transferência, também via área, de mais três pacientes neste mês de fevereiro. Um deles para morar com suas respectivas famílias em Ji-Paraná, Rondônia, outro em Cambé, no Paraná, e um terceiro em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. “Isso sem contar as saídas previstas para RTs em Sorocaba e outros municípios, previstas ao longo deste ano. Viabilizar para que tenham um resto de vida digna é o mínimo que podemos oferecer a essas pessoas”, acrescenta Mirsa.

Em Oliveira dos Brejinhos, Ana Mendes será assistida em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Seu histórico médico foi enviado para a equipe da unidade com quem, nesta quarta-feira (2), o enfermeiro que a acompanhou se reunirá para atualização do prontuário. Às 14h30, Ana Mendes estava em Vitória da Conquista (BA), durante escala aérea, aguardando a saída para Barreiras (BA), onde a aeronave deve pousar por volta das 16h30. “A conquista é toda dela, pois sobrevive após 38 anos internada em instituições psiquiátricas. Sua vida recomeçará logo mais à noite, quando chegará em casa e viverá em família”, finaliza Mirsa.