Nesta quinta-feira, 18 de fevereiro, o Brasil celebra o Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo e, em Sorocaba, a rede municipal de saúde atua no sentido de construir políticas públicas para atendimento dos dependentes do álcool.
Atualmente, o município conta com duas unidades específicas, os chamados Centros de Atenção Psicossocial (Caps) AD (Álcool e Drogas) do tipo III, que operam 24 horas e são peças fundamentais na instalação da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que está sendo redesenhada pela Secretaria da Saúde (SES).
“O Caps é um local onde a pessoa é envolvida. É exemplo de gestão ambulatorial. Evita-se a internação em instituição, uma possível recaída às drogas ou uma depressão. Há leitos temporários para internação e o objetivo é reconstruir a vida do paciente em sociedade, por meio de acompanhamento especializado e atividades no dia a dia”, explica a coordenadora de Saúde Mental do Município, Mirsa Elizabeth Dellosi. Pela proposta da Raps, para este ano está previsto mais um Caps III AD, pois um deles, o ‘Saca Só’ atende a Zona Norte e o ‘Roda Viva’, à Oeste. Falta um na Zona Leste.
Somente no Caps III AD “Saca Só”, que opera desde outubro de 2013, atuam 38 profissionais de saúde, de diversas áreas. São mais de 1.500 pacientes inscritos e 1.000 ativos que recebem atendimento frequente. Cada paciente tem um Projeto Terapêutico Singular, com participação em oficinas distintas, como horta, ginástica, culinária, pintura, tapetes e caminhada, entre outras. Também existem grupos de visitas domiciliares, psicoterápicos e de terapia comunitária.
“O Caps não é um hospital, o objetivo não é a internação. A revisão dos tratamentos dos pacientes é feita semanalmente. A ideia ainda é que funcione como uma segunda casa do paciente, um local em que ele pode entrar e sair quando quiser e frequentar determinadas atividades quando desejar. Parte da eficácia do tratamento está nisso e no fortalecimento de vínculos entre eles, seus familiares e amigos, pois estão acostumados a sofrer muito preconceito em sociedade”, destaca a coordenadora do Caps III ad “Saca Só”, Ilda Zaideman Azar.
Já no Caps III AD “Roda Viva” há mais de 700 pacientes ativos e o processo de atendimento é semelhante ao “Saca Só”. Os casos extremos, que necessitam de internação nos leitos provisórios, geralmente, são de casos de necessidade de afastamento do ambiente familiar, crise e para administração de medicamentos. “O trabalho é de atenção psicossocial e a dependência é uma característica do tratamento. Muitos pacientes não conseguem deixar o Caps mesmo após a alta médica, tamanho o vínculo que estabelecem”, argumenta a coordenadora técnica dessa unidade, Sandra Sarti.
Exemplo
Luís Antonio dos Santos, 47 anos, nasceu em Fartura, já morou em Carlópolis e há dois anos reside em Sorocaba, na casa de uma das suas irmãs. Tem uma história de vida da qual não se orgulha, mas também não tem vergonha de contar. “Devido à bebida, que comecei ainda jovem, perdi tudo: trabalho, família… Começou como diversão e virou refúgio para os problemas, que só aumentaram. Só estou vivo hoje por causa do Caps, que me acolheu de braços abertos e mudou a minha vida”, destaca.
Na unidade, participou de todas as 13 oficinas e grupos desenvolvidos. Fez até um relatório intitulado “Retratos de Vida”, elencando o aprendizado obtido em cada uma dessas atividades. Hoje em dia, atua como pintor e nas horas vagas frequenta o Caps. “É um espaço aberto. Entro e saio a hora que preferir, ao contrário das clínicas por onde passei. Sou tratado dignamente como pessoa. Gosto de tudo. Hoje sou uma pessoa esclarecida e entendo tudo o que passei”, frisa Luís Antonio, que está há dois anos sem ingerir uma gota sequer de bebida alcoólica.
Recorda que teve de duas a três recaídas. “Elas acontecem e fazem parte do processo. São exemplos para motivar uma superação”, comenta Ilda. Ele concorda: “É gratificante saber que sou capaz de muitas coisas. Voltei a jogar futebol, fazer artesanato e minhas atitudes mudaram. Sou mais esclarecido, inclusive, quanto à bebida”. Agora, se prepara para uma nova conquista: uma maior aproximação da família, principalmente da segunda irmã, do sobrinho e da filha, que mora em São Paulo com a mãe. “Agora me sinto em condições dignas de ser humano. Não dou mais motivo para se envergonharem de mim.”
A Rede
Segundo Mirsa Dellosi, preparar a Raps é determinante para atender a família do dependente químico no momento que ela procurar por atendimento, independente da hora, a fim de que se tenha um local adequado para abrigar o paciente e desenvolver o tratamento. Cita ainda que existem três Caps infanto-Juvenil (IJ), funcionando das 8h às 17h, para casos mais críticos envolvendo esse público.
A SES orienta que em casos de indivíduos dependentes químicos, cujos familiares decidam procurar por ajuda, se o paciente estiver consciente e em estado normal no dia a dia, e ainda que decida pela internação, o Caps e as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) são a porta de entrada para isso. Nos momentos de crise, quando a pessoa demonstra agressividade ou surto, deve-se recorrer ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ou levar para uma Unidade Pré-Hospitalar (UPH) ou Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) 24 horas, para medicação e sedação dos pacientes.
Na área de internação direcionada ao público infanto-juvenil, até setembro do ano passado, a Rede Municipal de Saúde tinha contrato com uma organização, mas que não estava cumprindo o estabelecido. Motivo pelo qual houve o rompimento da parceria que oferecida os serviços de Consultório na Rua (atendimento móvel) e Acolhimento infantil. A SES prepara o lançamento de editais de chamamento para contratar novo parceiro e oferecer esses dois serviços, bem como de Acolhimento adulto, respectivamente.
A coordenadora de Saúde Mental acrescenta que nos Caps é feito, também, esse trabalho de busca ativa de pacientes, mas que tende a ser ampliado a partir dessa nova fase. Já a Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba é unidade de internação via SUS no município e onde há 10 leitos psiquiátricos para pacientes com distúrbios mentais, inclusive devido a álcool e drogas.