Desinstitucionalização faz número de altas médicas superar o de óbitos

Por: Eduardo Santinon – esantinon@sorocaba.sp.gov.br

Mais três pacientes do Hospital Vera Cruz têm alta médica e vão morar em Residências Terapêuticas

O processo de desinstitucionalização da Saúde Mental, que está sendo realizado pela Secretaria da Saúde (SES), fez com que nos últimos dois anos o número de altas médicas de pacientes superasse o de óbitos. De 2014 para cá, houve 57 mortes de pacientes psiquiátricos no município, contra 243 altas médicas. As três transferências mais recentes ocorreram nesta quarta-feira (9), ocasião em que os pacientes deixaram o Hospital Psiquiátrico Vera Cruz – único polo local de desinstitucionalização e que atualmente conta com 453 internos – e foram morar em Residências Terapêuticas (RTs) de Sorocaba.

“É uma vitória tanto para os pacientes beneficiados quanto para nós profissionais da saúde. Comprova o sucesso do modelo adotado desde 2013 no município, e cujas ações foram agilizadas a partir da criação de uma comissão específica de desinstitucionalização na SES, em 2015, que coordena todo o processo”, destaca Mirsa Elisabeth Dellosi.

Em 2011 ocorreram 22 óbitos de pacientes de saúde mental do município e 03 altas. Contra 16 e 02, respectivamente em 2012. Em 2013 com o início da desinstitucionalização, houve 23 mortes, mas as altas começaram a aumentar e chegaram a 16. No ano seguinte, 2014, houve a reviravolta: 23 óbitos e 135 altas (22 para familiares, 108 para RTs em Sorocaba e 05 para RTs em outras cidades), números que em 2015 somaram 33 e 102 (23 para familiares, 67 para RTs em Sorocaba e 12 para RTs em outras cidades respectivamente.

“Vale destacar que em março de 2013 ocorreu a desativação do Hospital Psiquiátrico Jardim das Acácias; em julho de 2014 foi a vez do Hospital Mental Medicina, e em julho de 2015 o do Hospital Teixeira Lima. Ao todo, 398 pacientes foram encaminhados, provisoriamente, para o Hospital Vera Cruz”, lembra. Em 2016, até o momento, cinco pacientes foram conviver com seus familiares, outros três já vivem em RTs de Sorocaba e mais três em RTs em outras localidades. Neste ano houve o registro de apenas um óbito.

Mirsa recorda que o pontapé inicial para toda essa mudança na rede de atenção psiquiátrica, ocorreu após a assinatura do Termo Ajustamento de Conduta (TAC) entre as prefeituras de Sorocaba, Salto de Pirapora e Piedade, e os Ministérios Públicos Federal e Estadual, em dezembro de 2012, estabelecendo a completa desinstitucionalização de pacientes de saúde mental nessa região até dezembro deste ano.

A Prefeitura de Sorocaba mantém atualmente 26 RTs e pretende abrir mais 15 até o final do ano, de modo a atender a demanda local de pacientes. São 136 sorocabanos internados no Vera Cruz, além de outros 317 oriundos de 90 municípios. A SES está cobrando maior empenho e participação dessas localidades no processo de desinstitucionalização. Uma reunião com representantes de equipes de saúde mental das outras 47 cidades atendidas pelo Departamento Regional de Saúde (DRS-16), está confirmada para a próxima segunda-feira (14).

“Em conjunto com a equipe técnica do Hospital Vera Cruz, temos todo um cuidado em tentar localizar e contatar os familiares de pacientes, seja via Centro de Atenção Psicossocial (Caps) ou visitas domiciliares e pesquisas, a fim de possibilitar a reinserção social dessas pessoas.” O hospital está sob intervenção da SES e, desde o dia 21 de fevereiro, sob gestão da Associação Paulista de Gestão Pública (APGP).

Saídas

Nesta quarta-feira (9), Lázaro Antonio Siqueira, 56 anos; Rogério Marcos dias, 42 anos, e Geraldo Ribeiro, 73 anos, deixaram uma vida de internação para trás e passaram a morar em RTs de Sorocaba, respectivamente, localizadas no Jardim Refúgio, Vila Jardini e Parque São Bento. “É a justiça social sendo feita. É a garantia do direito da pessoa de ir e vir sendo assegurada. Eles terão a oportunidade de ir ao banco receber os benefícios que têm direito, ao supermercado, passear e restabelecer os laços com a sociedade”, comemora Mirsa.

Lázaro permaneceu internado por 22 anos, era andarilho e foi trazido ao hospital por uma assistente social de São Roque, onde por anos executou funções de assistente de cozinha. “Nem sei o que me trouxe aqui. Sei que estou indo para uma nova casa”, frisou o ex-interno, com sorriso no rosto. “Fazemos todo um trabalho de preparação que, neste caso, levou quase dois anos. É uma nova vida pela frente, com novos estímulos em sociedade”, aponta a assistente social, Samantha Tunuchi.

Geraldo Ribeiro ficou internado por 40 anos e a falta de estímulo comprometeu sua verbalização. “No passado, nos hospitais psiquiátricos, quanto menos o paciente reclamasse melhor. Esperamos agora, com o retorno ao convívio social, com mais estímulo, que a situação de Geraldo se reverta”, complementa Samantha. Já Rogério, vivia atrás de muros de diferentes hospitais psiquiátricos desde o cinco anos de idade, após ser diagnosticado com meningite. Ou seja, foram 39 anos de internação. “E está sempre sorrindo, apesar das dificuldades que já viveu. Agora seu sorriso está ainda maior”, mostrou Samantha.

Nas RTs, os moradores têm o acompanhamento de cuidadores que os auxiliam no dia a dia. Há RTs do tipo 1, cujos moradores recebem acompanhamento durante o dia, e as do tipo 2, voltadas a ex-internos com mais sequelas institucionais, que recebem cuidados 24 horas. “É uma vida normal, como de qualquer cidadão, onde começam a entender e vivenciar os comportamentos sociais. Em breve, haverá até um casamento entre dois internos que se conheceram dentro dos hospitais. A RT também é uma moradia provisória, pois muitos têm condição de viver sozinhos depois e até conseguem uma própria casa”, revela a coordenadora de Saúde mental de Sorocaba.

Mirsa pontua que quem faz a inclusão social é a comunidade e não o ex-interno. “Ainda há muito preconceito por parte da sociedade em aceitar esse público. O nosso trabalho estará completo quando, por exemplo, um vizinho convidar um morador para tomar café em sua casa. É a inclusão social propriamente dita. É nosso dever ajudar essas pessoas a virarem a página da exclusão”, finaliza.

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