Da chuteira à farda de Guarda Municipal

Por: Sandra Fonseca

São 6h45 da manhã, a viatura da Guarda Civil Municipal (GCM), que faz ronda escolar, está próxima a Escola Municipal Dr. Getúlio Vargas, na Vila Santa Terezinha, em Sorocaba. Um dos guardas – Jorge Augusto Pinto, 59, ajuda na segurança de dezenas de crianças, que chegam ao local para mais um dia de aula. Bem comum entre as crianças e jovens, muitos alunos, contam as horas para a aula de educação física. Alguns, querem mesmo bater uma bola, exercitar a paixão mundial: o futebol. Era ela, que na época de escola também tomava conta do coração do Guarda Municipal Jorge Augusto, o mesmo que hoje faz ali, a segurança dos alunos nos arredores da unidade de ensino.

Jorge Augusto usa a farda de GCM há 15 anos, mas, quando menino, aos 14 anos, vestia uniforme de jogo e calçava chuteiras para disputar o campeonato da Federação Carioca, na categoria dente de leite, representando o bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu. Era só o início de uma carreira, que o levaria até o futebol Europeu.

A brincadeira ficou séria

Aos 17 anos, Jorge Augusto foi convidado para fazer o primeiro teste para jogador. Era para a categoria de base do São Cristóvão, no Rio. O molejo do menino com a bola encantou os olheiros. Ali, ele jogou o campeonato carioca de base e migrou para o time profissional do próprio São Cristóvão, que no passado já disputou a primeira divisão do campeonato carioca.

Naquela época, Jorge Augusto jogava na posição de volante. Um dos dirigentes do São Cristóvão admirava muito a postura dele em campo e por meio de bons contatos no futebol chegou até Sebastião Lapola, então técnico do São Bento, que convidou o jovem Jorge Augusto para uma temporada de testes no Bentão, em Sorocaba. Um mês depois, o São Bento comprava o passe do jogador, aos 22 anos.

No São Bento, Jorge Augusto passou a jogar na zaga. Foram 3 anos atuando no clube como titular, 3 anos usando a Camisa de número 3, que ele considerava ser da sorte e que ele nunca mais trocaria ao longo de sua carreira no futebol. Jogou 3 Paulistões e um Campeonato Brasileiro da série B pelo São Bento.

Do Bentão para o mundão

No fim de 1983 o São Bento negociou o passe de Jorge Augusto com o Guarani, de Campinas. O agora, zagueiro, jogou mais um Paulistão pelo Guarani, ficou um ano no clube até ser negociado com o Santa Cruz, do Recife. Jogou 2 anos o campeonato Pernambucano e o Brasileirão. Mas, como bem diz o ditado que o “Bom filho a casa torna”, três anos depois o São Bento, que agora tinha como presidente Edgar Moura, trouxe Jorge Augusto de volta para Sorocaba. Aqui, mais uma vez o zagueiro brilhou no campeonato Paulista de 1987. Naquele ano, o São Bento teve a defesa menos vazada do Paulistão e ele contribuiu muito com o trabalho de zaga. Era dali, para o grande momento do futebol.

Anos dourados

No começo de 1988 lá se foi Jorge Augusto de novo, desta vez, jogar no Inter de Limeira. Por lá, encarou mais um Paulistão. Foi um ano lindo, quando nasceu sua primeira filha, Mayra, e Jorge Augusto Levou a família para morar em Limeira. Ao chegar de “mala e cuia” com mulher e filha na cidade, aquela noite de sono foi de sonhos em curso também.

No dia seguinte, Jorge Augusto foi chamado para uma reunião a portas fechadas com o presidente do Limeira. A frase que ouviu naquela sala é a que centenas de milhares de jovens sonhariam em ouvir um dia – “Jorge, vendi o seu passe para a Europa”.

O time de destino era o Vitória de Guimarães, na cidade de Guimarães, localizada próximo ao Porto, em Portugal.

Na Europa, Jorge Augusto passou 3 anos de futebol intenso. Jogou a primeira divisão do campeonato Português e a taça UEFA. O contrato encerrou em julho de 1991, quando Jorge estava com 32 anos e voltou para o Brasil com a família.

No Brasil, Jorge Augusto não largou totalmente a bola, trabalhou 15 anos como professor em uma escolhinha de futebol infantil, que ele fez questão de abrir para ensinar aos pequenos o que ele também aprendeu nos gramados. Nesse mesmo período, ainda trabalhou como auxiliar técnico do então treinador do São Bento, Zecão e por três meses foi ainda treinador do time profissional. Lá, encerrou sua carreira no mundo do futebol profissional.

Sai a chuteira, entra a farda

Em 2003, aos 43 anos de idade, o menino de Jacarepaguá, que tinha como principal ídolo Zico e brilhou no futebol Português, mas sempre possuiu coração de lar Sorocabano, fez o concurso para Guarda Civil Municipal de Sorocaba. Disputou com 11 mil candidatos e foi selecionado entre os 110 GCMs que passaram nas provas.

Neste outubro, mês do Servidor Público, o Guarda Municipal diz que tem orgulho de vestir a farda todos os dias e sair às ruas para ajudar na segurança da cidade, que ele escolheu para viver. Jorge Augusto leva o espírito do futebol em cada ação na Guarda Municipal de Sorocaba. “O futebol trouxe características que carrego diariamente no meu trabalho como Guarda Municipal, a facilidade de trabalhar em equipe, a disciplina e saber lidar com o público. Sempre me coloco na posição das pessoas e respeito o sentimento delas”, diz o GCM emocionado.

Para o comandante da Guarda Civil Municipal Marcos Mariano, Jorge Augusto é um exemplo de profissional. “Para nós, é uma honra tê-lo como companheiro, pois é muito comprometido com a causa pública e serve de exemplo para todos nós da corporação”. Elogiou o comandante.

Assista a reportagem:

https://www.youtube.com/watch?v=Wj6smcuKNXU