Projeto Megafauna, encabeçado pelo mergulhador/documentarista Tulio Schargel, e que existe desde 2012, contempla Sorocaba pela primeira vez
Yara e Polyana, ambas de 10 anos, alunas do 4º ano da Escola Municipal “Avelino Leite de Camargo”, fizeram uma espécie de viagem no tempo visitando aquilo que jamais teriam a possibilidade de acompanhar em 2,5 milhões a 10 mil anos atrás, no período denominado Pleistoceno. Elas, assim como outras mais de 3.500 crianças de cinco unidades de ensino sorocabanas, tiveram acesso ao projeto “Megafauna”, encabeçado pelo documentarista e mergulhador Tulio Schargel, e que busca instigar a curiosidade dos pequenos, sobretudo, com relação à Pré-História.
As palestras e oficinas com Schargel e o paleoartista Rodolfo Nogueira visitaram, desde o início da semana, as Escolas Municipais “Dr. Oswaldo Duarte”, “Getúlio Vargas”, “Duljara Fernandes de Oliveira”, além da “Avelino”. Nesta sexta-feira (11), eles encerram a passagem – a primeira pelo município desde o começo do projeto, em 2012 – com atividades às 9h30 e às 13h30 na unidade “Ary de Oliveira Seabra”, localizada na Rua João Granado, 45, no Jardim Eliana (Cajuru).
No projeto, Schargel exibe aos estudantes o documentário “O Brasil da Pré-História – O Mistério do Poço Azul”, lançado em 2007 e do qual participou da direção. Embora sempre dirija trabalhos relacionados à natureza, este média-metragem, em especial, marcou sua vida. Começou a ser pensado em 1997, quando mergulhou numa caverna da Chapada Diamantina, na Bahia, e encontrou alguns fósseis.
Entre a descoberta e o lançamento, um intenso trabalho de 10 anos – necessários para juntar recursos, estabelecer parcerias e reunir a equipe. Schargel conta que houve uma coprodução com a França, a fim de que fosse possível a realização. A expedição, na qual imaginava que ele e outros quatro mergulhadores encontrariam, no máximo, 100 ossos, surpreendeu a todos. “Saímos de lá com 4 mil ossos, de 45 espécies diferentes”, comenta, acrescentando que os paleontólogos François Pujos (francês), Gerry De Iuliis (canadense) e Castor Cartelle (Brasil) nortearam as buscas.
Das 45 espécies diferentes com fósseis encontrados havia a mais enigmática de todas, capaz de fazer praticamente toda a equipe chorar quando encontrada: tratava-se da ossada completa de uma jovem fêmea de preguiça gigante (Eremotherium laurilardi). O animal podia chegar a 5 toneladas e medir cerca de seis metros de comprimento. “Essa descoberta foi a cereja do bolo. Foi apenas a terceira já encontrada dessa espécie na história da paleontologia”, atesta o documentarista.
Hoje, segundo Schargel, o documentário produzido já foi rodado em 63 países e ganhou três prêmios internacionais. No Brasil, houve exibição pela National Geographic e, atualmente, ocorre pela BBC HD e Globo HD. “Como tinha essa parceria com a França, a gente conseguiu uma bela computação gráfica. Trouxemos de volta alguns animais para a vida, inclusive a preguiça, explicando como era um pouco dessa Pré-História e de como provavelmente esse bicho entrou na caverna. A ossada completa era, certamente, de um animal que entrou vivo e andou lá dentro, numa época que a caverna era seca”, explica.
Do documentário ao “Megafauna”
Com o sucesso da produção, uma professora de um dos três filhos de Schargel – à época com 5 anos – pediu que ele fosse falar aos alunos sobre o trabalho. “Eu fui e vi que tinha um potencial bacana. Aí desenhei o projeto Megafauna nas escolas”, lembra o documentarista. O “Megafauna”, então, foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC), recebeu patrocínio da Air Liquide e passou a circular nas escolas. Desde 2012, foram mais de 300 apresentações, assistidas por aproximadamente 25 mil crianças.
Para Sorocaba, foi trazido depois de uma conversa entre representantes da Air Liquide e da Secretaria da Educação (Sedu). Yara e Polyana, citadas no começo desse texto, estavam em êxtase depois de assistirem ao documentário. “Nossa matéria preferida é ciências e hoje aprendemos muito mais”, falaram enquanto travavam um debate saudável sobre qual animal tinham gostado. “O tigre de dente de sabre é bem mais legal”, dizia Yara. “Eu prefiro bem mais a preguiça gigante”, emendava Poliana.
Além da produção, Schargel apresenta às crianças réplicas dos fósseis da preguiça gigante, do tigre de dente de sabre e de outros quatro animais achados durante a expedição. Também desce um painel com a reprodução do que seria o tamanho real da preguiça e do tigre. Por fim, os alunos podem participar de uma oficina de desenho e escultura.
“Eu tenho três filhos e entendi que não era suficiente dar a melhor educação que eu pudesse pra eles. Compartilhar e levar esse tipo de informação para o maior número de crianças possível é abrir a cabeça, mostrar novos horizontes e possibilidades”, assinala Schargel.
Onde estão os fósseis?
Perguntado sobre os quatro mil ossos originais, o documentarista explica que estão no Museu de História Natural da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais. “Isso nunca pertence a quem encontra. Tudo no Brasil tem de ficar dentro de uma instituição ou universidade, onde vão ser preservados e estudados. Tudo que está abaixo do solo pertence à União, conforme a legislação do nosso País”, esclarece.