Comer e crescer em saúde, aprendizado e emoções

Por: Ana Carolina Chinelatto (Programa de Estágio) - Supervisão: Tânia Franco – ttferreira@sorocaba.sp.gov.br

Uma semana após a volta às aulas, 56 mil estudantes da Rede Municipal de Ensino recebem, todos os dias, o carinho de quem, especialmente, cuida de nutrir o corpo e o coração.

Quando se trata de criança e de seu desenvolvimento físico e emocional, o passar de gerações, muitas vezes, não muda coisas como ‘comer faz crescer forte e inteligente’. Isso, qualitativamente.

E que digam as vovós, mamães e cuidadoras que sabem muito bem que, para assimilar todo o conhecimento que se recebe e apreender as informações, diferente do que muita gente pensa, não é necessário somente se debruçar sobre livros e voltar toda a atenção ao professor enquanto a aula é ministrada. A alimentação constitui elemento fundamental para o desenvolvimento tanto adulto, quanto, principalmente, infantil. Fazer uma boa refeição implica em suprir todas as necessidades nutricionais de uma pessoa, o que resulta em mais energia e, consequentemente, um melhor aproveitamento do ensino.

Este cuidado não é parte do trabalho apenas de profissionais da área da saúde. Nas escolas municipais, a alimentação vai muito além da nutrição. As mais de 600 merendeiras que atuam nos Centros de Educação Infantil-Creches, nas escolas de Ensino Fundamental e Médio e na Educação de Jovens e Adultos (EJA), diariamente contribuem na formação dos alunos distribuindo carinho. O sentimento está presente não só na hora da preparação do alimento, mas também no cuidado e atenção com que tratam cada pessoa que vai saborear o que foi feito por elas.

Há 11 anos, Maria da Silva Souza saiu da sua terra natal, a Bahia, para vir a Sorocaba trabalhar como merendeira. Sonhadora, Maria, que já trabalhava na área lá no nordeste, vislumbrava um futuro melhor para as crianças e contribuir para que isso acontecesse era seu objetivo. A maneira que encontrou de ajudar foi trabalhar com aquilo pelo qual é mais apaixonada: cozinhar.

O amor pelo que faz é transferido para cada prato que prepara para os 515 alunos da Escola Municipal “Professor Basílio da Costa Daemon”, no Paineiras. Maria, que tem dois netos, trata cada criança como se fosse um dos seus pequenos. “Se eu cuidar de cada um com o amor com que cuido dos meus netos, eu tenho certeza que eles (netos), que logo vão entrar na escola, receberão tudo em dobro”, enfatiza.

Mas Maria, que está na escola há 6 anos, não trabalha sozinha. Sandra Regina Bispo Ambrosi, Andreia Ribeiro da Silva e Tamara Roberta da Silva também fazem parte da equipe responsável pela saúde física e que, também, se preocupa com a saúde emocional das crianças; entre outros motivos, por meio da emoção que colocam no prato.

Emoção que é pautada, neste momento, por uma condição de trabalho mais adequada, mais segura e que lhes atribui serenidade a cada nova manhã. Quando perguntadas sobre a troca da empresa que fornece a merenda, as profissionais se mostraram mais tranquilas. Segundo elas, a expectativa é melhor e, agora, não há preocupação com o que servir aos alunos, pois o abastecimento de alimento é frequente e não falta nada. Para elas, a relação de trabalho vai além da prestação do serviço e a compensação salarial, está relacionada ao compromisso do cuidar do outro. E são muitos outros.

Juliana Lima, que pertenceu ao quadro da antiga fornecedora de merenda escolar e, agora, é nutricionista da empresa Apetece, também diz que é gratificante ver o sorriso no rosto das crianças quando a merenda é entregue. “Quando chegou a faltar alimento foi uma situação muito triste, porque alguns alunos não têm o que comer em casa. Agora, nos sentimos satisfeitas em poder cuidar de verdade de cada um”, comenta referindo-se ao quadro que presenciou há pouco tempo por causa dos problemas com a ERJ, e à nova situação onde o fornecimento de merenda está totalmente regularizado.

Cuidado especial

Para que as merendeiras preparem as refeições adequadamente, é necessário, além do abastecimento dos alimentos, um cardápio elaborado previamente pelas nutricionistas da Seção de Alimentação Escolar da Secretaria da Educação (Sedu), de Sorocaba. Visando sempre a saúde dos alunos da rede municipal, tudo o que é prescrito pelas profissionais segue as determinações da resolução 26 do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Entre as 158 escolas e as 25 instituições conveniadas pela Prefeitura de Sorocaba, são preparados sete cardápios diferentes. Cada um deles, dependendo do período que o aluno permaneça na escola, atende uma porcentagem diária de nutrientes que devem ser ingeridos. A Seção de Alimentação Escolar garante que, no mínimo, sejam supridas 15% das necessidades diárias dos alunos. No caso de quem estuda no período integral, este número sobe para 70%.

Neste sentido, se por um lado, as crianças se desenvolvem melhor graças a uma alimentação correta, por outro, problemas como colesterol alto e obesidade infantil têm se tornado mais decorrentes a cada dia. Pensando nisso, a Prefeitura se preocupou em ter um cuidado especial com estes alunos.

Diabéticos, celíacos (intolerantes ao glúten), alérgicos à lactose ou a outros produtos, dislipidêmicos (colesterol e triglicérides elevados) e os que estão com sobrepeso recebem uma dieta diferenciada, que é passada por médicos e levada à escola por meio dos pais. Segundo a nutricionista da Seção de Alimentação Escolar da Sedu, Maria Cristina Antunes de Almeida, nestes casos, os cardápios padrões são adaptados para estes alunos. “Os alimentos que não podem ser ingeridos por eles são trocados por outros que tenham o mesmo valor nutricional”, explica.

No caso específico do sobrepeso, Maria Cristina lembra que, na maioria das situações, as dietas não precisam ser diferenciadas. Isto acontece porque todos os alimentos servidos nas merendas são saudáveis. “Frituras e doces, por exemplo, não são servidos com frequência, salvo as datas comemorativas, como na Páscoa, que servimos chocolates”, esclarece.

Para garantir que todas as orientações sejam seguidas, as nutricionistas da Prefeitura, em conjunto com as da empresa Apetece, visitam as escolas frequentemente verificando a qualidade dos alimentos, a quantidade dos gêneros alimentícios, higiene e o cumprimento do cardápio, entre outros.

Os pequenos têm voz

O arroz com frango, garante a nutricionista Juliana Lima, é o prato preferido da criançada. Quando recebem o prato, o sorriso é certo. Mas não são todos os alimentos que são aprovados. Conforme sua colega de profissão da Secretaria da Educação (Sedu), Lais Mamede Freire, quando há alguma mudança nas opções dos alimentos, ela deve passar pelo crivo dos pequenos. “Se o modo de preparo da carne muda, por exemplo, nós fazemos um teste. Tudo o que servimos deve ser do gosto das crianças”, frisa.

O barulho do sinal, indicando que chegou a hora do intervalo, é um dos momentos mais esperados pela garotada. A fila para pegar os pratos é enorme. Na bancada, as opções do dia são frutas e sucos. Tudo é sempre fresquinho. Os hortifrútis, por exemplo, são reabastecidos três vezes por semana.

Cada um com a sua merenda senta na mesa comprida, partilhando com os amigos um dos momentos mais abençoados para a maioria das pessoas: a hora da refeição. E na primeira semana de aula o momento de reencontro é bem aproveitado por cada um. Kiara Oliveira, aluna do 4º ano, não esconde a felicidade em retornar à escola. “Eu adoro esse momento. Todo dia tem comida muito boa, mas não é só isso. Fiquei muito tempo longe dos meus amigos, então o intervalo é a hora de a gente colocar o papo em dia, de matar a saudade!”, diz, na altura dos seus nove anos.

E o tempo, principalmente nesta fase da vida, parece não passar quando se trata de falar daquilo que as férias trouxeram, ou dos planos e sonhos para as próximas horas, pois, para quem tem a vida entre risadas liberadas, corridas desapegadas, abraços de verdade, cada minuto deve ser sorvido com alegria. E barriguinha cheia é uma grande felicidade.

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