Caps realizam ato em apoio à reforma psiquiátrica

Por: Eduardo Santinon – esantinon@sorocaba.sp.gov.br

Equipes e pacientes de três unidades de Sorocaba participaram de um abraço simbólico em favor à manutenção do processo de desinstitucionalização em saúde mental no País

Funcionários e pacientes de três Centros de Atenção Psicossocial (Caps), vinculados à Secretaria da Saúde (SES) de Sorocaba, protagonizaram um ato em favor da reforma psiquiátrica no Brasil, com a implementação de uma ampla política de desinstitucionalização. Na tarde desta segunda-feira (14), as equipes das unidades abraçaram simbolicamente os prédios onde estão instaladas, como parte da campanha nacional “Abraça Raps – Eu luto por uma sociedade sem manicômios”, desencadeada em todo o País.

“Sorocaba não podia ficar de fora dessa. Ainda mais um município que tem realizado, dentre outras ações, a constituição de uma sólida Rede de Atenção Psicossocial (Raps), composta por pontos de atenção integrados em uma rede articulada, complexa, intersetorial e multiprofissional, para promover a desinstitucionalização”, destacou Mirsa Elisabeth Dellosi, coordenadora de Saúde Mental da SES.

O abraço simbólico foi realizado no Caps infantojuvenil “Ser e Conviver”, do Jardim Pagliato; no Caps III “Arte e Encontro”, da Vila Progresso, e no Caps III Álcool e Drogas “Saca Só”, da Vila Angélica, e onde cerca de sessenta pessoas abraçaram o prédio. “Estamos apreensivos quanto ao futuro, com a possibilidade de um retrocesso em tudo o que já foi feito para dar mais dignidade aos pacientes do município”, aponta Ilda Zaideman Azar, coordenadora do Caps III AD “Saca Só”.

A sensação de insegurança se deve, também, à nomeação do psiquiatra Valencius W. Duarte Filho, em substituição a Roberto Tykanori, na função de coordenador nacional de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, do Ministério da Saúde. Duarte Filho atuou como diretor da Casa de Saúde ‘Doutor Eiras’, em Piracambi, na década de 1990, que chegou a ser o maior hospital psiquiátrico privado da América Latina, com práticas explícitas de violação dos direitos humanos. Ele também se posicionou contrário ao projeto de lei que originou Lei 10.216, de reforma psiquiátrica.

Com a progressiva desativação dos hospitais psiquiátricos no município de Sorocaba, os Caps têm papel fundamental no atendimento a esse público diante do Processo de desinstitucionalização, firmado no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) Sorocaba, bem como a abertura de residências terapêuticas (Rts). “Estamos fazendo esse ato para tentar assegurar a continuidade do trabalho realizado, que é dar mais dignidade e sociabilidade a essas pessoas que atendemos. Isso, esse abraço não pode medir tamanho ao que é feito para melhorar a vida desse pessoal”, reforça a psicóloga Elisete Aparecida Ramos Schiezaro.

“Faz um ano, nove meses e 22 dias que entrei pela primeira vez aqui no Caps ‘Saca só’ e, de lá para cá, não bebi mais. Minha vida mudou, reconquistei a minha família, os meus amigos, o trabalho e a minha dignidade. Não tenho do que me envergonhar”, contou Antonio Ferraz, 63 anos. Ele foi à unidade pela manhã para participar de uma reunião e resolveu voltar à tarde, para o abraço simbólico. “O Caps foi uma tábua de salvação na minha vida. O alcoolismo ficou para trás e devo muito a essa equipe e ao processo todo. Não poderia ficar de fora deste ato”, complementou.

A Raps em Sorocaba está sendo revisada, projetada e constituída conforme previsto no TAC. “A interrupção deste processo representaria não só um retrocesso muito grande no desenvolvimento da saúde mental no Brasil, como constituiria um duro golpe para todos os países que se habituaram a ver na reforma psiquiátrica Brasileira, um dos melhores exemplos do que é uma implementação de sucesso dos princípios de política de saúde mental”, finaliza Mirsa.

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