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Acessado em: 30/11/2025 - 03h14

A dignidade tem várias faces

Por: Marcelo Adifa - mlribeiro@sorocaba.sp.gov.br

Para Eraldo Calazans, os piores dias da sua vida foram os que ele passou morando na rua e sem conseguir sequer tomar um banho. Com 62 anos de idade, natural de Aracaju, Calazans, que se expressa com facilidade descreve as oportunidades que perdeu em razão da falta de um endereço: “Eu trabalho com limpeza e higienização, logo eu que tive que ficar dias sem banho; foram tempos difíceis em Sorocaba”.

Conectado, as redes sociais tem papel fundamental em sua vida. “Quando falei na internet que era morador de rua as oportunidades sumiram, até clientes com quem era acostumado a trabalhar deixaram de me contratar, mas eu entendo eles”, aponta um feliz idoso que consegue falar do seu sofrimento sem se mostrar resignado ou rancoroso com o que passou.

A vida de Calazans começou a mudar quando passou a ser assistido pela equipe de Assistência Social da Prefeitura de Sorocaba. Com um perfil atípico, Calazans estava na rua, mas destaca que nunca foi usuário de drogas ou álcool. Religioso, tem no evangelho um norte de vida que propaga a quem encontra e destaca a importância da fé em suas decisões e caminhos. “nunca perdi a fé, mas não sabia para que Deus queria que eu estivesse ali na rua, o que eu tinha que passar”.

No final de dezembro de 2016 ele seria uma das vinte pessoas em alta vulnerabilidade social que se mudariam para a Vila Dignidade, conjunto habitacional específico para idosos e que a Secretária de Igualdade e Assistência Social de Sorocaba, Cíntia de Almeida está transformando em referência de aplicação de políticas públicas e valorização da melhor idade.

Foi nos encontros entre as pessoas que ocupariam as casinhas da Vila Dignidade que Eraldo conheceu Ana Maria Valéria Ramos, três anos mais velha que ele, e se apaixonou. “Foi fácil, eu era o mais bonito da fila”, diz referindo aos outros companheiros de condomínio, hoje seus vizinhos. É assim que ele descreve o início da relação com a namorada.

Morando ao lado, foram se aproximando e agora planejam o casamento “mas cada um no seu canto, em sua casa”, diz Ana Maria, ela que vivia com a filha e se sentia ocupando o espaço dos netos em um pequeno quarto na periferia de Sorocaba.

Também evangélica, é à religião que ela credita a serenidade e a disposição para suportar as provas que a vida lhe impôs. “No começo eu não queria vir pra cá, as assistentes sociais sabem, mas Deus estava me dando uma benção e eu demorei pra perceber, agora tenho a casa e um companheiro pra vida toda, tenho dignidade”.

 

Horta e cachorrinho adotado

Quando encontrou um espacinho de terra em que a grama não pegava, o aposentado José de Paula Ferreira, de 65 anos, já planejou rapidamente o que fazer. “Aquilo dava uma horta, a grama não crescia mas a terra é boa” e foi assim que ele logo arrumou algumas ferramentas e passou a preparar alguns canteiros em que vai plantar legumes e verduras “vai servir pra nós, vamos comer tudo aqui dentro mesmo”.

E quando a ideia é boa logo aparecem parceiros. Não demorou e o vizinho Carlos Gomes, 64 colocou as mãos na terra e passou a contribuir na manutenção e rega da futura pequena horta. “Logo começa a dar alguma coisa e vamos dividir entre os vizinhos”, diz, demonstrando o que farão com o fruto do trabalho.

Não é só da terra que se ocupa José Ferreira. Ele adotou um pequeno cachorro que protege sua casa e é companheiro de conversa. Ele fala e o cachorro responde num ganido de quem reconhece o dono. A dignidade tem váriaA dignidade tem várias faces.