Artigo publicado no Jornal Bom Dia, em 16/03/2016
A questão dos portadores de doenças mentais se diferencia, no conjunto dos problemas de saúde de que a Prefeitura cuida, através da Secretaria Municipal de Saúde (SES), por mais de um motivo.
Um deles – de fundamental importância – diz respeito à maneira pela qual se constituiu a população institucionalizada.
Até poucas décadas predominou no País o tratamento institucionalizado do portador de distúrbios psiquiátricos. O paciente era recolhido a um hospital, por determinação médica, e nele mantido compulsoriamente. Seu tratamento se sobrepunha totalmente à sua vida.
Naquele momento, por razões que, aparentemente, ainda não foram pesquisadas, Sorocaba – assim como seu entorno – se tornou uma área de concentração de estabelecimentos daquela natureza, que aqui sobreviveram mesmo após o início da chamada luta antimanicomial.
Uma consequência foi a recepção por estes, a medida que se fechavam as portas dos manicômios anteriormente operantes em outros pontos do Estado e do país, de pacientes que aqui não residiam. Hoje, para cada um que aqui tem residência, temos aqui dois com famílias radicadas em outros municípios.
Forçado a assumir o pesado encargo, o Município recebeu, com ele, um problema ainda mais sério: o da elevada mortalidade dos doentes institucionalizados. Mais pacientes deixavam as instituições de saúde mental pela porta que leva ao necrotério do que pela que se abre para o mundo exterior. Assim, em 2011, contra apenas 3 altas, foram registrados 22 óbitos.
A contar de 2014, a situação se alterou consideravelmente. Naquele ano, as altas chegaram a 135 – sendo 108 para pessoas que passaram a morar em Residências Terapêuticas (RTs) – contra 23 óbitos. Em 2015 os óbitos foram 33 e as altas 102, das quais 79 para RTs.
As Residências Terapêuticas são um primeiro e importante passo para se promover a reinserção do paciente no dia a dia. Ele passa a residir com um grupo de outras pessoas em tratamento e conta com acompanhamento de cuidadores durante 12 ou 24 horas, de acordo com suas necessidades específicas.
De 2014 para cá, tivemos, no Hospital Psiquiátrico Vera Cruz – polo da desinstitucionalização em Sorocaba – 57 mortes e 243 altas médicas. Ou seja: quatro altas para cada óbito.
Isso significa que, em Sorocaba, o processo de desinstitucionalização da Saúde Mental conduzido pela SES está não somente viabilizando a reinserção de antigos pacientes no convívio social, mas também, literalmente, salvando vidas.