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Acessado em: 19/01/2026 - 04h27

2º Fórum da Rede de Atenção Psicossocial lota auditório do Sesc

Por: Esdras Felipe Pereira (Programa de Estágio) Supervisão: Tânia Franco – ttferreira@sorocaba.sp.gov.br

Evento faz parte das comemorações ao Dia Nacional de Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio

 

Realizado pela Secretaria da Saúde (SES), o 2º Fórum da Rede de Atenção Psicossocial de Sorocaba (Raps) lotou o auditório do Sesc Sorocaba, na tarde desta terça-feira (17). O evento é alusivo às comemorações do Dia Nacional de Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio. Estiveram presentes representantes da Coordenação de Saúde Mental da SES, Ministério Público Federal (MPF), Defensoria Pública, Departamento Regional de Saúde (DRS-16), Conselho Regional de Psicologia, estudantes de universidades locais, bem como pacientes assistidos e seus familiares.

O tema foi “Loucura e liberdade na voz dos usuários e trabalhadores da saúde mental de Sorocaba”. De acordo com a coordenadora de Saúde Mental do município, Mirsa Elisabeth Dellosi, a escolha veio bem a calhar, principalmente levando-se em consideração o bom andamento do processo de desinstitucionalização em prática no município. “É um orgulho fazer parte dessa história. O processo só se faz com uma rede de atenção forte e, no momento, temos de comemorar. Nosso modelo está começando a ser conhecido nacionalmente”, destacou.

Mirsa mostrou-se contente ao ver a multidão ocupando as cadeiras do auditório. Segundo ela, essa presença maciça confirma o envolvimento das pessoas no processo. “Mas temos de ter noção que (a desinstitucionalização) não é apenas o paciente sair dos hospitais psiquiátricos. Ela engloba uma série de questões, como a cidadania e os direitos humanos”, explicou.

Titular da SES, Francisco Antonio Fernandes esteve representado pela vice-prefeita e secretária de Desenvolvimento Social Edith Di Giorgi. Ela classificou o evento como “um dia de alegria”. “Ainda temos muito o que avançar na desinstitucionalização, mas também precisamos comemorar o que já foi feito, pois tratam-se de avanços importantes”, comentou. Nesta caso, fez referência ao fechamento de três hospitais psiquiátricos em Sorocaba e às 26 Residências Terapêuticas (RTs) em funcionamento, que abrigam atualmente 241 pessoas.

 

MPF

A procuradora da República Lisiane Braecher também integrou a mesa de discussão do fórum. Explicou aos presentes um pouco do trabalho feito pelo MPF e ressaltou a necessidade do atendimento aos direitos constitucionais dos cidadãos, principalmente aqueles relacionados à liberdade, autonomia, saúde, moradia e igualdade.

Ainda durante sua fala, a Lisiane contou rapidamente sobre as reuniões que resultaram no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), firmado em 18 de dezembro de 2012, entre a União, Estado e os municípios de Sorocaba, Piedade e Salto de Pirapora, visando à completa desinstitucionalização até dezembro de 2016. “Vale lembrar que a saída do hospital (psiquiátrico) é apenas o começo. O processo de inclusão (na sociedade) não cessa e não deve ficar só na área da saúde, mas também atingir áreas como educação e trabalho, para fortalecer essa grande mudança que está havendo na região.”

Experiências

A dona de casa Ângela Márcia Felipe, 51 anos, chegou cedo ao evento e sentou-se na primeira fila do auditório. Debaixo do braço carregava uma espécie de dossiê sobre sua mãe, Deusarina de Barros, 76 anos. Ex-interna em instituição psiquiátrica, vive hoje numa RT na Vila Progresso. “Minha mãe ficou por um tempo no Hospital Mental, onde era muito maltratada”, contou, mostrando as fortes imagens dos hematomas e queimaduras sofridos à época da internação.

Após o fechamento do Hospital Mental, Deusarina foi transferida para o Polo de Desinstitucionalização Vera Cruz. Há dois anos, porém, mudou-se para a RT. “A RT foi uma salvação na vida dela. Hoje digo que encontro com a minha mãe, não com a doença dela. Por isso acredito na importância da desinstitucionalização”, disse Ângela. A filha, aliás, relembra com orgulho do último fim de semana que passou com a mãe. “Trouxe ela aqui no Sesc passear e a levei num restaurante. Está evoluindo muito, é uma bênção”, citou, visivelmente emocionada.

Integrando a mesa de discussão do fórum, Eduardo Fioravante Junior, que é atendido em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) da cidade, não se intimidou em contar sua história ao público. Revelou que foi levado pela família ao Caps há dois anos, após uma tentativa de suicídio. “No início achava que era algo relacionado à depressão simplesmente. Mas, com o tratamento, percebi que eram coisas que já aconteciam comigo desde a adolescência”, alegou. “Na cabeça dos meus familiares era algo espiritual, relacionado à religião”, completou.

Desde o início do acompanhamento feito no Caps, Fioravante não têm dúvidas a respeito de sua evolução. “Melhorei bastante. E consigo me expressar muito melhor, principalmente pela escrita. Consigo descrever tudo que vejo, como se fosse uma realidade só minha. Sinto como se fosse um dom”, argumentou ele, que começou a escrever um livro e surpreendeu o público ao entregar um trecho aos que o acompanhavam na mesa de discussão.

Também integraram a mesa, Dezelena Capistrano da Costa e Suzana Costa, ambas representando a DRS-16. Nos intervalos, houve apresentações de números artísticos. E, do lado de fora do auditório, foram expostos e vendidos produtos artesanais confeccionados por pacientes em saúde mental assistidos na rede municipal.

 

Mais atividades

        Outras atividades serão realizadas em alusão ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Nesta quarta-feira (18), das 10h às 12h, está confirmado evento na Praça Coronel Fernando Prestes, no Centro. Representantes das sete Caps vão expor peças de arte e artesanato desenvolvidas nessas unidades, por pacientes e seus familiares. Os visitantes poderão conhecer, por exemplo, os trabalhos do projeto “Pano, Ponto e Prosa”, realizado nas unidades que oferecem atendimento infantil. São peças em tecidos como colchas de retalho. Na abertura, às 10h, haverá apresentação do coral “Vozes da Esperança”, da Unidade Básica de Saúde (UBS) Nova Esperança.

Já a Unidade Pré-Hospitalar (UPH) Zona Oeste, em parceria com o Caps III “Alegria de viver”, realiza até sexta-feira (20) a exposição de quadros “A arte de viver cada vez que o mundo diz não”. As telas foram pintadas por pessoas que são atendidas pela equipe de atenção psicossocial. Os estagiários do curso de Psicologia da Unip participarão na sexta-feira (20) de uma ação educativa, com os pintores da exposição, distribuindo folhetos informativos e conversando com a população sobre o trabalho desenvolvido pela equipe de atenção psicossocial em Sorocaba.